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Controller Cast #59 – De Controller a CFO: o caminho das pedras para evoluir na carreira financeira

Capa Controller Cast 59

Em um mercado onde a área financeira ganha cada vez mais protagonismo, entender a trajetória de quem conseguiu evoluir de funções técnicas para posições de liderança estratégica é um aprendizado valioso. No episódio #59 do Controller Cast, conversamos com Paulo Spricigo, Diretor Financeiro LATAM da Oterra, sobre sua jornada de mais de 15 anos em finanças , de auditor na Deloitte a CFO com atuação internacional.

A conversa trouxe uma visão profunda sobre como o profissional financeiro pode se transformar em líder estratégico, os erros mais comuns que impedem essa evolução e como habilidades como comunicação, política e entendimento do negócio são tão ou mais importantes que a técnica.

Neste artigo, compartilhamos os principais insights dessa conversa, e você também pode assistir na íntegra abaixo:

Da bicicleta à Deloitte: uma carreira construída com disciplina e curiosidade

A trajetória de Paulo começou cedo , literalmente pedalando. Aos 15 anos, ele trabalhava entregando documentos de bicicleta. Depois, ingressou na área de informática, dando aulas de Word, Excel e PowerPoint. Mas o interesse por negócios e finanças falou mais alto.

“Meu pai era empreendedor, e eu sempre tive curiosidade por entender como as empresas funcionavam. Gostava de ver números virando resultados”, relembra.

A virada aconteceu em 2008, quando entrou na Deloitte como trainee. Lá, mergulhou no universo da auditoria, participando de projetos complexos, como o IPO do Magazine Luiza. A experiência foi o primeiro contato com processos robustos, metodologia e disciplina, três elementos que moldaram seu estilo de liderança.

“A auditoria me ensinou método e rigor. Foi onde aprendi a estruturar processos e a olhar para detalhes sem perder a visão do todo.”

Diversidade de experiências: o segredo da visão ampla

Depois da Deloitte, Paulo passou por setores como hotelaria, educação, indústria e agronegócio, além de vivências em operações internacionais no México, Peru, Colômbia e Argentina. Ele acredita que essa pluralidade foi essencial para desenvolver uma visão de negócio mais completa.

“Passei por vários segmentos, e cada um me ensinou algo diferente. Hotelaria me mostrou a importância do foco no cliente; indústria me ensinou sobre eficiência e margem; e multinacional trouxe complexidade, governança e multiculturalidade.”

Essa experiência multifacetada o ajudou a entender que o financeiro não é apenas um guardião de números, mas um conector entre áreas e culturas, capaz de traduzir metas em resultados tangíveis.

De Controller a CFO: o que muda na visão e nas competências

Muitos profissionais sonham em chegar ao cargo de CFO, mas poucos compreendem o que realmente muda entre as duas funções. Para Paulo, a diferença fundamental está no tipo de olhar que se adota sobre o negócio.

“O Controller olha pelo retrovisor, buscando garantir a assertividade dos números. O CFO, por outro lado, olha pelo para-brisa. Ele usa os números como bússola para tomar decisões e direcionar o futuro.”

Essa mudança de perspectiva exige deixar de ser um executor técnico para se tornar um líder estratégico, capaz de transformar dados em decisões, números em narrativas e planos em ação.

“Não é fácil desapegar do técnico. Mas se você quer evoluir, precisa parar de ser apenas quem entrega relatórios e começar a ser quem inspira e influencia.”

O maior desafio: deixar de ser técnico para ser estratégico

Ao longo da conversa, Paulo destacou um ponto que aparece com frequência entre profissionais financeiros: a dificuldade de sair da operação para a estratégia.

“Você pode ser excelente tecnicamente, dominar o Excel, fazer modelagens incríveis… mas se não souber comunicar o impacto disso para o negócio, vai ficar invisível.”

Para ele, a virada de chave ocorre quando o profissional entende que o valor de seu trabalho não está apenas na qualidade dos relatórios, mas na capacidade de gerar impacto e influenciar decisões. Isso passa por três pilares:

  1. Entender o negócio: sair da cadeira, visitar operações, conversar com vendas e clientes.
  2. Comunicar bem: traduzir o técnico em linguagem de negócio.
  3. Ser político: ter posicionamento, construir relacionamentos e saber influenciar.

“O financeiro precisa tirar o bumbum da cadeira e entender o negócio. Tem gente que faz análise de estoque, mas nunca viu o produto. Quando você vai a campo, muda completamente a visão.”

Financeiro: o motor da empresa, não apenas o freio

Uma das falas mais marcantes do episódio foi quando Paulo afirmou que o financeiro precisa parar de agir como uma área de suporte e começar a se enxergar como motor de crescimento.

“Muita gente fala que o financeiro é o freio da empresa. Eu discordo. A gente é o motor. Somos nós que damos a visibilidade de resultados, o ritmo do caixa e o entendimento da margem.”

Segundo ele, essa mudança de mentalidade exige que o financeiro assuma protagonismo e se comunique de forma proativa com as demais áreas.

“A gente reclama que o marketing ou o comercial não entende Finanças, mas será que a gente entende o lado deles? Comunicação é uma via de mão dupla.”

O papel do orçamento empresarial na transformação do financeiro

Um dos temas mais abordados foi o planejamento orçamentário, assunto central na atuação da Treasy. Para Paulo, o orçamento é uma ferramenta essencial para conectar estratégia, metas e execução.

“O orçamento não é do financeiro, é da empresa. Ele é o contrato entre as áreas sobre o que cada uma vai entregar. Quando todas participam, o processo deixa de ser burocrático e passa a ser colaborativo.”

Ele destaca que a cultura orçamentária precisa ser construída com envolvimento genuíno de todas as áreas, e que o financeiro deve liderar esse processo com diálogo, não com imposição.

“O financeiro não deve ser cobrado pelas áreas. Ele deve cobrar as áreas , não com autoridade, mas com propósito. Mostrar por que aquele número importa e como impacta o resultado da empresa.”

Esse ponto ecoa o que chamamos na Treasy de Estágio 5 da Maturidade Financeira: Descentralização e Colaboração (descubra o nível de sua empresa aqui), quando o orçamento deixa de ser um exercício contábil e se torna uma ferramenta de gestão viva, integrada e compartilhada por toda a organização.

Erros comuns que travam o avanço do profissional financeiro

Durante a conversa, Paulo foi direto ao ponto: muitos profissionais ficam presos na operação e, por isso, nunca conseguem ser reconhecidos como estratégicos.

“O maior erro é ser refém do processo. ‘Sempre foi assim’, ‘é o prazo que tenho’, ‘não posso mudar’ , isso mata a inovação.”

Outro erro é acreditar que trabalhar muito é sinônimo de trabalhar bem.

“No começo da carreira, eu achava que o reconhecimento viria por ser o mais técnico e o que mais entrega. Mas o que realmente sustenta uma carreira é transformar técnica em impacto. Se ninguém vê valor no que você faz, repense.”

A recomendação é simples: faça menos planilhas e mais perguntas. Entenda o contexto, as dores e os objetivos das outras áreas. E, principalmente, aprenda a vender seu trabalho internamente, algo que, segundo Paulo, muitos financeiros ainda não sabem fazer.

Comunicação: a soft skill que diferencia o CFO do Controller

Paulo foi categórico: a comunicação é a habilidade mais importante para quem quer crescer em finanças. Isso inclui tanto a comunicação interna, com equipe e diretoria, quanto a externa, com o mercado e stakeholders.

“Eu costumo dizer que o principal cliente do financeiro são as outras áreas. Se você não as ouve, não as entende e não sabe se comunicar, está falhando com seus clientes internos.”

Ele também destacou a importância da comunicação de posicionamento, falar de resultados e aprendizados nas redes, especialmente no LinkedIn, para fortalecer a marca pessoal e inspirar outros profissionais.

“As dores do financeiro são universais. Quando a gente fala delas, descobre que não está sozinho, e isso gera engajamento e aprendizado.”

Liderança e cultura: o papel do CFO em um ambiente multicultural

Hoje, à frente das operações financeiras da Oterra na América Latina, Paulo lidera times no Brasil, México, Peru, Colômbia e Argentina. Ele compartilhou aprendizados sobre liderar à distância e em culturas diferentes.

“A América Latina é diversa. No México, a estrutura é mais hierárquica; no Peru, mais próxima e colaborativa. É preciso adaptar o estilo de liderança a cada cultura.”

Ele destacou que a confiança é a base da liderança multicultural, e que escutar é mais importante do que impor.

“Você não pode chegar impondo o jeito brasileiro de fazer as coisas. Primeiro ouça, entenda o contexto local e construa confiança. Só depois traga suas contribuições.”

Essa abordagem reflete a essência do líder financeiro moderno, alguém que equilibra técnica, empatia e flexibilidade para gerar resultados em diferentes realidades.

Tecnologia, IA e o futuro das finanças

Não poderia faltar o tema do momento: Inteligência Artificial. Paulo acredita que a IA não é uma ameaça, mas um divisor de águas , desde que a base esteja bem estruturada.

“A IA não é varinha de condão. Se o seu master data não estiver organizado, ela vai aprender errado. O financeiro precisa fazer a lição de casa primeiro.”

Segundo ele, muitas empresas ainda lutam com dados desestruturados e processos mal definidos, o que impede a adoção inteligente da tecnologia.

“Antes de pensar em IA, pense em governança de dados. Só com base sólida é possível colher o valor real dessa tecnologia.”

Conselho para quem está começando: impacto antes de reconhecimento

Ao final do episódio, Paulo compartilhou um conselho valioso , que resume bem sua filosofia de carreira:

“Trabalhar muito não é trabalhar bem. Trabalhar bem é gerar impacto. Se ninguém percebe o valor do que você faz, talvez esteja olhando para o lugar errado.”

Ele reforça que o reconhecimento vem quando o profissional passa a resolver problemas do negócio, e não apenas entregar relatórios perfeitos.

“Pare de medir sua performance pelo número de planilhas. Meça pelo quanto você ajuda sua empresa a crescer.”

Um recado final aos financeiros

Para fechar a conversa, Paulo deixou uma mensagem direta e inspiradora:

“Os profissionais de finanças não estão sozinhos. As dores são comuns, mas as oportunidades também. Se posicionem, argumentem, comuniquem-se. O financeiro é o motor da empresa, e está na hora de acelerar.”