No universo da gestão financeira, poucos indicadores ganharam tanta popularidade quanto o EBITDA. Bancos o utilizam para analisar crédito, investidores o empregam em valuation e conselhos de administração frequentemente tomam decisões estratégicas baseados nele. Mas será que o EBITDA é realmente um bom guia para medir a saúde e o futuro de uma empresa?
No episódio 58 do Controller Cast, conversamos com Marcelo Luz Alves, consultor de empresas, professor de MBA e sócio fundador da Apolo Value Investing, que trouxe uma visão crítica e ao mesmo tempo prática sobre a forma como gestores utilizam esse indicador — e por que muitas vezes isso pode levar empresas à destruição de valor.
Mais do que questionar, Marcelo apresentou alternativas sólidas para que donos de empresa, controllers e CFOs passem a olhar para os indicadores certos — aqueles que de fato conectam rentabilidade, caixa e crescimento sustentável.
Neste artigo, compartilhamos os principais insights dessa conversa, e você também pode assistir na íntegra abaixo:
O fascínio pelo EBITDA: uma moda que saiu do controle
O EBITDA se popularizou nos anos 1980, especialmente nos Estados Unidos, em operações de aquisições alavancadas. Sua simplicidade chamou atenção: ao “limpar” depreciação, impostos e juros, parecia traduzir de forma rápida a capacidade de geração de caixa de uma empresa.
Mas, como destaca Marcelo, o EBITDA não é caixa. Ele representa uma geração potencial, que pode ou não se materializar. O resultado é que muitas empresas “bonitas no EBITDA” acabam quebrando por falta de liquidez.
O problema é ainda mais grave quando bônus e remunerações variáveis são atrelados a esse indicador. O risco de premiar gestores que “inflam” o EBITDA sem gerar caixa real é enorme — e já vimos inúmeros casos emblemáticos, como o Grupo X e até o Pão de Açúcar, que sofreram duramente por decisões tomadas com base apenas nesse indicador.
Da geração potencial à realidade: a conversão em caixa
Uma das pesquisas realizadas por Marcelo com empresas listadas na bolsa mostrou que, em média, apenas 60% do EBITDA se converte em fluxo de caixa operacional (FCO). Em alguns setores, essa conversão cai para 30% ou 40%.
Por quê?
Os principais “agressores” dessa conversão são:
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Necessidade de capital de giro (NCG): quanto mais a empresa cresce, mais aumenta sua necessidade de financiar estoques e contas a receber.
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Capex: investimentos em máquinas, tecnologia e estrutura consomem caixa.
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Impostos e encargos: frequentemente ignorados quando se olha apenas para o EBITDA.
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Custo de capital: seja de terceiros (juros) ou dos próprios acionistas (retorno esperado).
Esse abismo entre o EBITDA e o caixa é o que explica o famoso dilema vivido por muitos empresários: “meu EBITDA está ótimo, mas cadê o dinheiro?”
A Gestão Baseada em Valor (GBV): um novo olhar
Para superar essa visão limitada, Marcelo defende a Gestão Baseada em Valor (GBV), que tem como objetivo principal garantir que o retorno sobre o capital investido (ROIC) seja maior do que o custo médio ponderado de capital (WACC).
Em outras palavras, gerar valor é entregar uma rentabilidade superior ao custo do dinheiro investido.
Na prática, isso significa:
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Olhar para o ROIC: medir quanto de retorno a empresa gera sobre o capital efetivamente investido (máquinas, estoques, contas a receber etc.).
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Controlar o capital investido: não basta crescer o lucro operacional; é preciso garantir que ele cresça mais rápido do que os ativos necessários para sustentá-lo.
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Focar no fluxo de caixa livre: o que sobra depois de pagar impostos, investir em ativos e financiar o capital de giro. É ele que define a capacidade de a empresa crescer de forma saudável.
Marcelo chama atenção para um indicador simples, mas poderoso: NOPAT / NCG (lucro operacional líquido de impostos dividido pela necessidade de capital de giro). Segundo ele, este é um dos melhores termômetros da eficiência operacional.
Crescimento a qualquer custo? Cuidado com a “tesoura”
Um dos pontos mais interessantes da conversa foi a discussão sobre o crescimento desordenado. Muitas empresas acreditam que crescer sempre é positivo, mas esquecem que, quando a necessidade de capital de giro aumenta mais rápido do que o lucro operacional, o resultado é destruição de valor.
Esse efeito é conhecido como “tesoura”: a empresa cresce em vendas, mas não consegue sustentar o aumento de estoques e contas a receber. O caixa some e a dívida explode.
Por isso, a gestão baseada em valor ajuda a calibrar o crescimento:
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Se o ROIC é de 5%, não faz sentido crescer mais do que 5% ao ano.
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Se o ROIC é de 15%, a empresa tem espaço para crescer de forma acelerada sem comprometer sua sustentabilidade.
Startups e empresas da Nova Economia: o mesmo jogo com outras regras?
E as startups, que muitas vezes operam com prejuízo no presente para gerar valor no futuro?
Marcelo foi claro: os fundamentos continuam valendo. Investidores podem aceitar que o retorno venha no longo prazo, mas a lógica de que o capital investido precisa gerar retorno superior ao seu custo permanece.
“Podem inventar novos termos, métricas da moda, mas no fim do dia, gestão é gestão: alguém investiu capital e espera retorno. Se isso não acontece, o valor está sendo destruído”, destacou Marcelo.
Indicadores que realmente importam
Se o EBITDA é limitado, quais indicadores deveriam estar no radar de controllers e CFOs? Marcelo lista alguns essenciais:
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FCO (Fluxo de Caixa Operacional): traduz o potencial em dinheiro disponível.
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NOPAT / NCG: mede a eficiência operacional.
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ROIC: avalia a rentabilidade sobre o capital investido.
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WACC: calcula o custo do capital (próprio e de terceiros).
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EVA (Economic Value Added): mostra se a empresa está gerando ou destruindo valor, comparando ROIC e WACC.
Mudança de mentalidade: o maior desafio
Implementar essa visão não é apenas uma questão de técnica, mas de cultura. Muitas empresas ainda estão presas ao “vício do EBITDA”, reforçado por conselhos, bancos e até investidores.
Segundo Marcelo, a transição precisa começar por pequenos passos:
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Continuar reportando o EBITDA (para manter a linguagem comum).
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Adicionar o FCO nas análises e mostrar sua diferença em relação ao EBITDA.
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Introduzir gradualmente indicadores de valor (ROIC, WACC, EVA).
Essa mudança de mentalidade pode ser lenta, mas é fundamental para garantir decisões mais estratégicas e sustentáveis.
A conexão com o planejamento orçamentário
O tema também se conecta diretamente ao planejamento orçamentário. Ao definir metas para 2026, por exemplo, não basta projetar crescimento em vendas ou lucro operacional. É essencial avaliar:
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Qual será o impacto no capital de giro?
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Haverá necessidade de novos investimentos em ativos?
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Qual será a geração de caixa livre após essas decisões?
Aqui na Treasy, trabalhamos diariamente com empresas que enfrentam exatamente esse desafio. Nossa solução de Planejamento Orçamentário e BI Financeiro ajuda gestores a enxergar não apenas o planejado vs. realizado, mas também simular cenários e entender o impacto de cada decisão no caixa e na criação de valor
Conclusão: muito além do EBITDA
O episódio com Marcelo Luz Alves foi um verdadeiro convite à reflexão: estamos medindo a coisa certa?
Se o seu negócio ainda se apoia exclusivamente no EBITDA, é hora de repensar. Ele pode continuar sendo reportado, mas jamais deve ser o norte das decisões estratégicas.
A verdadeira performance de uma empresa está em sua capacidade de gerar valor, ou seja, entregar um retorno superior ao custo do capital investido. E isso só é possível quando olhamos para indicadores mais completos e conectados com a realidade do caixa.
