A Reforma Tributária é tratada por muita gente como um problema distante, com efeito lá em 2033. Mas, para a pequena e média empresa, a conta já começou — e a forma como o dono, o contador e o financeiro reagirem nos próximos meses pode definir o quanto o negócio vai chegar competitivo (ou não) do outro lado da transição.
No episódio #67 do Controller Cast, conversamos com Juliana Monteiro, Diretora de Finanças e Controladoria da Conta Azul, sobre exatamente isso: o impacto da Reforma Tributária na vida das PMEs. Juliana tem uma trajetória que combina perfeitamente com o tema — começou na área tributária e construiu carreira em controladoria, finanças e gestão orçamentária, passando por consultoria, indústria e tecnologia.
Tem também uma simetria bonita nessa conversa: o primeiro episódio do Controller Cast, em 2017, foi com o primeiro controller da Conta Azul, Marcio Andrade. Quase dez anos depois, a Conta Azul volta ao programa — agora pela cadeira de diretoria. A seguir, reunimos os principais aprendizados desse bate-papo.
Neste artigo, reunimos os principais insights do episódio. E, claro, você também pode conferir a conversa completa no vídeo abaixo (ou ouvir no Spotify):
Da área tributária à diretoria: uma trajetória que “criou casca”
Juliana iniciou a carreira ainda no último ano da faculdade, num programa de trainee de uma das Big Four, onde ficou cerca de quatro anos. Foi ali que ela acompanhou de perto o nascimento do universo do SPED e a digitalização do controle fiscal brasileiro — o momento em que os modelos antigos, manuais e autodeclaratórios, deram lugar a checagens praticamente automáticas no envio das informações.
Em seguida, decidiu migrar para o lado de dentro das empresas, para ser quem decide e ajuda a fazer acontecer, e não apenas quem orienta ou audita. Passou por uma indústria de pneus no Paraná — a primeira planta industrial do grupo fora da Ásia, com toda a complexidade de definir processos, pessoas, sistemas e benefícios tributários do zero. Depois foi para a Bematech, empresa de capital aberto, onde entrou pela área tributária e, a partir do conhecimento do processo fiscal, foi se aproximando da contabilidade, da controladoria e da gestão orçamentária até se consolidar em posição gerencial.
Essa bagagem, segundo ela, traz uma vantagem concreta diante da reforma: não se apavorar. Por já ter vivido a chegada do SPED, da nota fiscal eletrônica e a implantação de ERP do zero mais de uma vez, ela encara a mudança como complexa, porém atravessável — pessoas, processos e sistemas caminhando juntos até o outro lado: “Criei casca.”
O que realmente muda para a PME
Quando o assunto é o que a reforma altera na prática, Juliana resume em duas grandes frentes. A primeira é a dinâmica da alíquota: a unificação de tributos, com a extinção de PIS e Cofins e a entrada de IBS e CBS, deve elevar a alíquota e muda a lógica de créditos, dentro do regime da não cumulatividade. A segunda é a dinâmica de recolhimento, com a cobrança passando a ocorrer na origem — a própria empresa que compra segrega o valor do tributo e, na lógica do split de pagamento, ele iria direto ao fisco (mecanismo que foi postergado neste primeiro ano).
Ela também faz um alerta sobre o calendário. Em 2026, estamos numa fase de teste, com alíquotas simbólicas — e isso pode dar a falsa sensação de que dá para deixar para depois. Como o time financeiro da PME costuma ser enxuto, o risco é deixar tudo para a última hora e enfrentar todo o impacto de uma vez. A analogia que ela usa é a da maratona: você precisa treinar gradualmente para chegar preparado no dia da prova.
Vale o registro de que, na visão de Juliana, a reforma não resolve sozinha todas as mazelas do país, mas tende a tornar o ambiente de negócios brasileiro mais compreensível depois da transição — e ajuda a reduzir a vantagem competitiva de quem hoje sonega, tornando o mercado mais justo.
Preço, custo e margem: o que priorizar nos próximos 12 a 18 meses
Boa parte da audiência do Controller Cast é o financeiro e a controladoria de PMEs. Por isso, perguntamos diretamente: separando o ruído do que importa, o que essa empresa precisa olhar nos próximos 12 a 18 meses?
A resposta de Juliana foi direta: impacto em precificação e custo. É isso que vai determinar o quão competitivo e justo fica o preço praticado e qual será o efeito real na lucratividade e na rentabilidade do negócio. Partindo do pressuposto de que a PME se apoia num escritório de contabilidade para a parte técnica, o dono precisa concentrar a preocupação na continuidade do negócio — e continuidade, nas palavras dela, envolve preço, custo e margem.
O maior erro nas transições: subestimar a mudança
Com a experiência de quem já viu várias viradas no mercado tributário, Juliana aponta o erro mais comum das empresas: subestimar o tamanho da mudança nos processos e na forma de organizar o negócio.
O problema é que o impacto dessa subestimação só aparece lá na frente. A empresa até faz os ajustes sistêmicos e opera de forma tecnicamente correta, mas descobre tarde demais que o preço não está adequado, que o custo subiu ou caiu, que não previu o efeito — simplesmente porque subestimou. Daí a conclusão que atravessa todo o episódio: isso não pode ser tratado apenas como assunto do contador.
O dilema do Simples Nacional e a questão do crédito
Um dos pontos mais sensíveis para o perfil de cliente da Conta Azul é o futuro do Simples Nacional. Juliana é transparente quanto ao papel da empresa: a Conta Azul não faz consultoria sobre qual o melhor regime para cada cliente — essa orientação cabe ao mercado contábil —, mas a plataforma ajuda na análise dos dados.
Sobre o tema, ela reconhece que não há resposta pronta, e que esse é um dos grandes temores do momento: até que ponto o Simples Nacional vai continuar atrativo, justamente por causa da questão dos créditos. Ela levanta a hipótese de que, em alguns casos, uma empresa um pouco maior possa ter carga tributária menor do que se mantida 100% no Simples Nacional — uma conta que precisará ser feita caso a caso, com apoio do contador.
O papel do financeiro e da controladoria: caixa, split e previsibilidade
Se o dono precisa olhar para preço, custo e margem, o que sobra para o financeiro e a controladoria?
Para Juliana, a maior dor do financeiro está no split de pagamento: definir quanto de cada pagamento vai para o fornecedor e quanto vai para o fisco. Isso adiciona complexidade real à gestão do fluxo de caixa, porque uma despesa que antes era única pode se transformar em duas fontes de saída em momentos diferentes.
Já a controladoria tem um desafio mais ligado à projeção. É ela quem precisa entender como ficará o orçamento de 2027, 2028 e 2029, qual o nível de impacto em receita, custo e despesa, e se algum fornecedor vai repricar — lembrando que alguns contratos já preveem o repasse direto ao cliente em caso de mudança da carga tributária. No fim, o ponto mais afetado é a previsibilidade. E aqui vale a conexão com a rotina que defendemos na Treasy: revisões orçamentárias, análise de desvios e um acompanhamento de resultados que permita recalibrar projeções à medida que as regras de transição avançam.
Como explicar tudo isso para o dono da empresa
Explicar precificação e margem para quem conhece muito do próprio negócio, mas não é especialista em tributos, não é trivial. Juliana é honesta: a facilidade depende do grau de maturidade de quem explica e de quem recebe, como em qualquer processo de ensino.
A boa notícia é que o mundo digital facilitou o acesso ao conhecimento. Hoje é possível apresentar simuladores, ilustrar efeitos e até usar a própria inteligência artificial para apoiar a discussão de modelos de precificação. Ainda assim, ela faz uma ressalva importante: preço não se resolve só com número. Há sensibilidade de mercado, disposição do cliente a pagar, tamanho e localização — fatores de economia comportamental que exigem julgamento humano. É justamente nesse ponto que o profissional de finanças e o contador seguem insubstituíveis: traduzir o conhecimento técnico e potencializá-lo com a tecnologia.
Plano de ação para os próximos 90 dias
Para quem terminar o episódio e quiser sair com algo prático, Juliana sugere começar por dois movimentos.
O primeiro é buscar o contador, ou o parceiro que já apoia a empresa nessas questões. Quem não tiver esse apoio pode recorrer à Conta Azul para localizar um parceiro. Em paralelo, junto do time de vendas, vale entender desde já o quanto a mudança mexe no preço e se há possibilidade de repasse — em setores como indústria, software e clínicas, muitos contratos já trazem cláusula de repasse em caso de mudança da carga.
O segundo movimento é o autoestudo: entender as mudanças não só pelas notícias, mas em conteúdo de profundidade — desde os conselhos de classe até os cursos online do próprio legislativo, que explicam as ondas e fases da transição, além das informações disponíveis no site da Receita Federal. E usar simuladores para inserir os dados do negócio e enxergar os próximos passos.
IA em finanças: o que a Conta Azul já faz na prática
Como a Conta Azul é uma empresa de tecnologia, não dava para encerrar sem falar de inteligência artificial. Juliana conta que a IA já reduziu drasticamente atividades que ainda eram manuais — como os duplos checks que exigiam cruzar bases de dados em locais diferentes, e a própria construção de relatórios (ela cita um fluxo de caixa indireto montado com apoio de IA que “bateu perfeito”).
Internamente, a empresa disponibilizou acesso a ferramentas de IA para os colaboradores, criou uma área dedicada de transformação em finanças, com dois recursos exclusivos para aplicar automação aos processos, e mantém reuniões mensais em que os times compartilham casos de uso. Em vez de definir metas de consumo por área, a opção foi incentivar o uso coletivo e destacar quem tem mais facilidade com o que é experimental. O próximo passo, segundo ela, é avançar para o uso preditivo. Para os clientes, a plataforma já conta com recursos que capturam nota e extrato, conciliam, contabilizam e indicam contas a pagar e a receber, caminhando para uma jornada apoiada em agentes de IA.
A mensagem final: parceria, não terrorismo
Juliana faz questão de separar a complexidade real da transição do alarmismo. Ela observa que algumas pessoas vendem o “curso da reforma” como terrorismo — uma forma de dizer “é tão complexo que você precisa de mim”. A postura que ela defende é outra: buscar tranquilidade por meio da parceria com o contador, com o consultor financeiro e com as ferramentas disponíveis para entender o impacto real no próprio negócio.
E há um dado de fundo que reforça a urgência. Pesquisas da Conta Azul citadas por ela no episódio mostram um cenário preocupante: cerca de 83% dos empreendedores têm pouco ou nenhum conhecimento sobre a reforma, a maioria acredita que haverá aumento de carga tributária, e algo em torno de 91% dos contadores enxergam a reforma como uma oportunidade de ampliar seu papel estratégico nas empresas. Ou seja: a aliança entre a PME e o mercado contábil será decisiva.
Para Juliana, apesar do tamanho da mudança, nunca estivemos tão preparados — seja pela inteligência artificial, seja pelo protagonismo das empresas que vêm educando o mercado e os próprios contadores. E a aposta dela é de um Brasil com mais possibilidades de negócio no médio e longo prazo.
Confira o episódio completo
O episódio #67 do Controller Cast com Juliana Monteiro é uma conversa essencial para donos de PME, contadores e profissionais de finanças, controladoria e FP&A que querem sair da reação e construir um plano diante da Reforma Tributária.
Para colocar o plano de 90 dias em prática, dois materiais citados no episódio se complementam: o simulador da Reforma Tributária da Conta Azul, para estimar o impacto na carga do seu negócio, e o diagnóstico de impacto da Reforma Tributária da Treasy, que olha a mudança pelas óticas do financeiro, da contabilidade e da controladoria.
Assista ao episódio completo e deixe suas dúvidas nos comentários — seguimos liberando ferramentas e materiais de apoio para você atravessar a reforma com mais segurança.
