Em muitas empresas, a tesouraria ainda é vista como uma área operacional: responsável por pagamentos, recebimentos, gestão de caixa e relacionamento bancário. Tudo isso continua sendo importante. Mas, no cenário atual, limitar a tesouraria à execução é desperdiçar uma das áreas com maior capacidade de antecipar riscos, proteger capital e conectar decisões financeiras ao futuro do negócio.
No episódio #66 do Controller Cast, conversamos com André Biasotto, Gerente de Tesouraria na John Deere, executivo sênior de finanças com mais de 20 anos de experiência em setor bancário, tesouraria, gestão de riscos, mercados de capitais, FP&A e transformação financeira.
Ao longo da conversa, André compartilhou aprendizados de sua trajetória em instituições financeiras e grandes indústrias, passando por temas como tesouraria estratégica, relacionamento com bancos, integração entre tesouraria, FP&A e controladoria, uso de Inteligência Artificial em finanças, reforma tributária e duplicatas escriturais.
Neste artigo, reunimos os principais insights do episódio. E, claro, você também pode conferir a conversa completa no vídeo abaixo (ou ouvir no Spotify):
Da carreira bancária à tesouraria corporativa
A trajetória de André começou no setor bancário, onde atuou por mais de uma década em instituições como Banco Alfa e Santander. Segundo ele, essa experiência foi essencial para entender não apenas produtos financeiros, mas também o funcionamento do sistema financeiro e a lógica por trás do posicionamento dos bancos.
“Os bancos, nesses primeiros 11 anos de carreira, foram essenciais para conhecimento de produtos bancários, conhecimento do sistema financeiro e relacionamento bancário com clientes multinacionais.”
Depois dessa primeira etapa, André decidiu “sentar do outro lado da mesa” e migrar para a indústria, atuando em tesouraria em empresas como Ambev e John Deere. Na conversa, ele destaca a Ambev como uma grande escola técnica de formação em tesouraria, especialmente pela exposição a operações internacionais, bancos no exterior, sistemas de risco, derivativos, gestão de caixa e produtos financeiros mais complexos.
Essa combinação de experiências — banco, indústria, relacionamento comercial, produtos financeiros, gestão de riscos e operação multinacional — aparece ao longo de todo o episódio. Afinal, para André, a tesouraria estratégica não nasce apenas da técnica. Ela nasce da capacidade de conectar mercado, negócio, capital, risco, banco, operação e liderança.
Os quatro pilares da tesouraria
Ao explicar sua atuação atual, André resumiu a tesouraria em quatro grandes pilares: gestão de fluxo de caixa, funding, gestão de capital e riscos de tesouraria.
O primeiro pilar é a gestão de fluxo de caixa, que passa pela projeção de vendas, compras, necessidades de capital e capacidade da empresa de sustentar suas operações. O segundo é o funding, relacionado à estruturação de linhas de crédito, relacionamento bancário, construção de produtos financeiros e diferenciação entre bancos locais e estrangeiros.
O terceiro pilar é a gestão de capital, que envolve discussões sobre o tamanho adequado da empresa em cada país, distribuição de dividendos, juros sobre capital próprio, royalties e repatriação de capital. O quarto é a gestão dos riscos de tesouraria, com atenção a moedas, exposições, Banco Central, mudanças regulatórias e eventos externos.
Como André resumiu no episódio, a tesouraria precisa “colocar tudo isso dentro de uma sacola, balançar, e aí sair um plano de ação de tesouraria”.
Essa imagem é simples, mas poderosa. No dia a dia, o profissional de tesouraria precisa transformar sinais dispersos — guerra, juros, câmbio, reforma tributária, mudança bancária, demanda de capital, risco de crédito, fornecedor, cliente e liquidez — em decisões concretas para proteger e impulsionar o negócio.
Tesouraria operacional x tesouraria corporativa
Um dos pontos centrais da conversa foi a diferença entre uma tesouraria mais operacional e uma tesouraria corporativa.
Para André, a tesouraria operacional é comum em empresas de pequeno e médio porte. Ela aparece muito próxima de contas a pagar, contas a receber, centro de serviços e rotinas de processamento. Seu papel é garantir conexão com o negócio, processamento de pagamentos, governança mínima e uso adequado do caixa.
Já a tesouraria corporativa tem uma responsabilidade mais estratégica. Ela participa desde a definição de investimentos, aquisição ou venda de empresas, gestão de liquidez, gestão de riscos de capital e relacionamento com outros departamentos. Em outras palavras, ela sai da execução pura e passa a participar das decisões que moldam o futuro da empresa.
“A tesouraria corporativa participa desde o início da definição de um investimento, de um projeto de aquisição de uma outra empresa ou venda de parte dos negócios.”
Essa diferença não significa que toda empresa precise montar uma estrutura robusta de tesouraria de uma hora para outra. O próprio André alerta que não faz sentido uma empresa pequena criar uma tesouraria com dez analistas se isso não condiz com sua realidade.
A virada depende do modelo de negócio, do setor, da dependência de capital de terceiros, da influência das taxas de juros na margem e da necessidade de liquidez. Em empresas que dependem muito de bancos, por exemplo, ter um ponto focal que saiba se relacionar bem com instituições financeiras e contar a história do negócio se torna fundamental.
“Tesouraria precisa entender do negócio ao ponto de conseguir explicar para outros o que a sua empresa faz exatamente.”
Esse talvez seja um dos grandes recados do episódio: a tesouraria estratégica não começa quando a empresa fica grande. Ela começa quando o financeiro entende que caixa, capital e risco precisam ser tratados como parte da estratégia.
Tesouraria, FP&A e Controladoria precisam andar juntos
Outro tema forte do episódio foi a integração entre tesouraria, FP&A, controladoria, contabilidade, impostos, contas a pagar, contas a receber, auditoria e controles internos.
Para André, quando essa relação acontece de forma fluida, o ganho é enorme para o negócio. A tesouraria ajuda a dar velocidade a projetos corporativos, porque, como ele diz, “tudo no final do dia acaba sendo dinheiro na mesa”.
Essa visão é especialmente importante em um contexto no qual o financeiro precisa deixar de ser apenas uma área que fecha números e passa a atuar como parceiro estratégico do negócio. Tesouraria e FP&A, por exemplo, se complementam na preparação de forecasts, reports gerenciais e análises para a liderança.
André também chama atenção para o papel da tesouraria na revisão proativa de controles internos. Segundo ele, muitas empresas se orgulham de não ter apontamentos de controles internos há anos. Mas, se os controles continuam os mesmos em um mercado que mudou, os riscos podem estar sendo apenas ignorados.
“Se os seus controles internos são os mesmos de 10 anos atrás, a tesouraria não está sendo mitigada. Os riscos continuam existindo e talvez estejam em uma miopia de finanças.”
A provocação é importante. Em um mundo de mudanças regulatórias, novos produtos bancários, fraudes, ataques cibernéticos, reforma tributária e transformação digital, controle interno não pode ser uma fotografia antiga. Precisa ser revisitado, questionado e atualizado com frequência.
E esse trabalho começa pela qualidade e integração das informações financeiras. Afinal, fica muito mais difícil conectar Tesouraria, FP&A e Controladoria quando cada área olha para dados diferentes, planilhas isoladas ou relatórios que não conversam entre si.
Por isso, se a sua empresa quer dar um primeiro passo para ter mais clareza sobre caixa, resultado e indicadores financeiros, você pode criar uma conta gratuita no Treasy e começar a estruturar essa visão integrada a partir dos dados do seu ERP.
O financeiro precisa olhar também para fora da empresa
Um dos exemplos mais interessantes do episódio foi a discussão sobre riscos que não nascem necessariamente dentro da empresa, mas podem impactar diretamente seus custos, fornecedores e estrutura financeira.
André citou, por exemplo, discussões sobre escala de trabalho, mudanças no mercado de energia e impactos regulatórios sobre fornecedores. Mesmo quando uma mudança parece não afetar diretamente a área administrativa ou financeira, ela pode afetar empresas terceiras que prestam serviços de limpeza, segurança, frete, energia ou outros insumos.
No final, esse impacto pode voltar para a empresa em forma de custo.
Por isso, ele defende que áreas como tesouraria e FP&A criem ambientes para discutir riscos de médio e longo prazo. Isso pode incluir risco de concorrentes, clima, crédito, liderança, formação de talentos, fornecedores, Inteligência Artificial e mudanças regulatórias.
Mais do que gerar relatórios, o financeiro precisa fazer perguntas melhores: o que pode impactar nossa margem nos próximos meses? Que risco está crescendo na cadeia de fornecedores? Que mudança regulatória pode alterar nosso caixa? Que evento externo pode afetar nosso custo de capital?
Esse tipo de pergunta transforma o financeiro em uma área de antecipação, e não apenas de registro.
Relacionamento bancário não é “bid pelo bid”
Como alguém que já esteve dos dois lados da mesa — banco e empresa — André trouxe uma visão muito prática sobre relacionamento bancário.
Para ele, um erro comum das empresas é tratar banco apenas como fornecedor de taxa. Ou seja, fazer cotações com vários bancos e escolher sempre a menor taxa, sem construir uma relação de confiança, clareza e reciprocidade.
“Reciprocidade bancária não necessariamente é fazer o bid pelo bid, cotações com quatro bancos e o que me der melhor resultado é o produto que vou contratar.”
Na visão de André, banco é um parceiro relevante do negócio. Isso não significa abrir informações sensíveis ou expor segredos estratégicos, mas colocar a instituição financeira na mesma página sobre os objetivos da empresa, seus projetos e sua realidade.
Quando a tesouraria explica o negócio para o banco, o banco entende melhor o risco, a oportunidade e o tipo de produto que pode oferecer. Isso tende a gerar relações mais maduras, principalmente em momentos de necessidade de crédito, funding, alongamento de dívida ou estruturação de produtos específicos.
O erro mais caro, segundo André, está na falta de transparência na comunicação.
“Quando a empresa é transparente sobre os objetivos e o que é importante para ela, abre oportunidade para o banco fazer o mesmo.”
Em outras palavras, relacionamento bancário estratégico não se constrói apenas na hora de precisar de dinheiro. Ele se constrói antes, com clareza, confiança e recorrência.
Inteligência Artificial em Finanças: menos resposta pronta, mais pensamento crítico
A Inteligência Artificial também apareceu com força no episódio. André comentou que tem aplicado IA tanto na vida pessoal quanto no trabalho nos últimos anos, inclusive para reduzir o tempo gasto com gestão de e-mails.
Mas o ponto mais importante da conversa não foi a ferramenta em si. Foi o uso crítico da tecnologia.
Para André, muitas empresas ainda estão no primeiro nível de adoção da IA: perguntas simples, respostas rápidas e uso pouco estruturado. O desafio é avançar para um segundo nível, com criação de soluções mais robustas, agentes, assistentes, metodologias de checagem, validação de alucinações e testes de efetividade.
A provocação é direta: a IA democratizou o acesso a respostas e conhecimentos técnicos, mas não substituiu o raciocínio lógico.
“Ela democratizou aquele conhecimento técnico que existia no Excel, que às vezes os especialistas demoravam anos para atingir. Mas o raciocínio lógico em busca da solução continua lá.”
Essa fala é especialmente relevante para profissionais de finanças. Afinal, a área sempre lidou com modelos, planilhas, premissas, análises e decisões baseadas em dados. Se antes o risco era aceitar cegamente o resultado de uma planilha, agora o risco é aceitar cegamente o resultado de uma IA.
Como André lembrou no episódio:
“A planilha deu essa informação. Mas deu o quê? Com base no quê?”
A pergunta continua valendo. Só muda a ferramenta.
Por isso, antes de aplicar IA em larga escala, o financeiro precisa entender o problema, separar em fases, criar metodologias de checagem, testar respostas em ambientes adversos e construir uma versão final confiável.
Reforma tributária, liquidez e duplicatas escriturais: dois temas para acompanhar
Na parte final do episódio, André comentou dois temas que devem impactar fortemente a tesouraria nos próximos anos: reforma tributária e duplicatas escriturais.
Sobre a reforma tributária, ele destacou o potencial impacto na liquidez das empresas. Parte dos valores que hoje passam pelo caixa das empresas poderá ter outra dinâmica de arrecadação, o que exige atenção à necessidade de capital, linhas bancárias, taxas de juros e revisão de forecasts.
Segundo André, isso reforça ainda mais a conexão entre tesouraria, FP&A, impostos e fornecedores. A empresa precisará conhecer melhor sua cadeia, recalibrar projeções e entender como as mudanças afetam caixa, crédito tributário e capital de giro.
Já as duplicatas escriturais trazem outro tipo de desafio. André explicou que a mudança busca dar mais importância à duplicata como título negociável, criando uma nova dinâmica para desconto, registro, reconhecimento e pagamento.
O benefício esperado está na qualidade da informação gerada pelo processo, com mais visibilidade sobre relação entre clientes e fornecedores, prazos de pagamento, efetividade e sazonalidade. Mas, ao mesmo tempo, existe um desafio relevante de controles internos, contas a pagar, sistemas e conciliação.
Para empresas grandes, a pergunta será: o sistema está pronto para isso? Para empresas menores, a recomendação é procurar bancos, fintechs e parceiros financeiros para entender quais produtos e soluções farão sentido para sua realidade.
Curiosidade intelectual: a habilidade que sustenta o futuro do financeiro
Ao final da conversa, André deixou uma dica prática para profissionais de tesouraria, controladoria, FP&A e finanças em geral: desenvolver curiosidade intelectual.
“Eu falo muito no dia a dia sobre curiosidade intelectual. Curiosidade intelectual para a Inteligência Artificial, para entender mais o negócio, para entender o que passa ali do lado do seu vizinho na FP&A, na Controladoria.”
Essa talvez seja a melhor síntese do episódio. A tesouraria estratégica exige técnica, sim. Exige domínio de caixa, capital, funding, riscos, bancos, sistemas e indicadores. Mas exige também interesse genuíno pelo negócio, pelos departamentos vizinhos, pelos fornecedores, pelo mercado, pela tecnologia e pelas mudanças regulatórias.
O profissional que se limita à execução corre o risco de ficar preso ao processo. O profissional curioso, por outro lado, encontra conexões, questiona premissas, testa soluções e ajuda a empresa a se preparar para o futuro.
Confira o episódio completo
O episódio #66 do Controller Cast com André Biasotto é uma conversa essencial para quem atua em tesouraria, controladoria, FP&A ou liderança financeira.
Mais do que falar sobre caixa, bancos e riscos, a conversa mostra como a tesouraria pode assumir um papel muito mais estratégico dentro das empresas: conectando áreas, protegendo capital, antecipando mudanças, apoiando decisões e preparando o negócio para cenários cada vez mais complexos.
Se você quer entender como a tesouraria pode sair da execução e se aproximar da estratégia, vale conferir o episódio completo.
