O contas a pagar costuma ser tratado como uma engrenagem operacional do financeiro. Uma área necessária, mas pouco estratégica. O episódio 63 do Controller Cast mostra que essa visão já não se sustenta — especialmente quando analisamos dados reais do mercado brasileiro.
No bate-papo com Ivan Mello, gerente de Controladoria da Qive, mergulhamos nos bastidores do Panorama de Contas a Pagar 2026, um estudo baseado em mais de R$ 3 trilhões em transações B2B e 314 milhões de documentos fiscais analisados. O objetivo da pesquisa não é prever o futuro, mas revelar como o dinheiro efetivamente circula entre empresas no Brasil — e quais riscos, gargalos e oportunidades aparecem nesse caminho.
O resultado é um alerta claro: o contas a pagar está no centro das decisões de caixa, governança e, em breve, da própria estratégia tributária das empresas.
Abaixo você pode assistir o episódio na íntegra, ou ouví-lo no Spotify.
Você também pode acessar o link oficial do Panorama para consumir o material na íntegra enquanto acompanha o bate papo.
Neste artigo, resumimos os principais pontos do episódio para você:
Como a pesquisa foi construída (e por que isso importa)
Um dos pontos reforçados por Ivan ao longo do episódio é o cuidado metodológico do estudo. O Panorama de Contas a Pagar 2026 tem caráter descritivo, ou seja, ele não tenta explicar “por que” algo acontece, mas mostrar o fenômeno como ele é, a partir de dados reais.
A pesquisa se apoia em três grandes fontes:
- Dados anonimizados da base da Qive, com transações B2B reais
- Mais de R$ 3 trilhões em valores financeiros analisados
- Uma pesquisa de percepção com 406 profissionais, conduzida com apoio do Opinion Box
O estudo foi organizado em quatro capítulos:
- Como as empresas brasileiras pagam entre si
- Inconsistências e vulnerabilidades no contas a pagar
- Contas a pagar e reforma tributária
- O papel estratégico do backoffice financeiro
Essa estrutura permite conectar o dado operacional à discussão estratégica — algo que raramente acontece quando falamos de contas a pagar.
👉 A pesquisa completa está disponível aqui.
Boleto ainda domina os pagamentos B2B (apesar do Pix)
Um dos dados mais curiosos — e contraintuitivos — da pesquisa é a permanência do boleto como principal meio de pagamento entre empresas.
Mesmo com o crescimento acelerado do Pix no Brasil, 69% das transações B2B ainda acontecem via boleto. No estudo anterior, esse número era de 74%, ou seja, houve uma queda, mas o domínio permanece claro.
A leitura apressada poderia sugerir atraso tecnológico. Mas, na prática, o que os dados indicam é outra coisa.
Segundo Ivan, o boleto segue sendo preferido porque ele se comporta como uma entidade de dados. Ele carrega informações estruturadas, é facilmente rastreável e se encaixa melhor em fluxos de aprovação, conciliação e auditoria — algo essencial no ambiente B2B.
Enquanto o Pix prioriza velocidade, o boleto prioriza controle. E, nas empresas, esse trade-off ainda pesa mais para o lado da governança.
Inconsistências que custam caro (e passam despercebidas)
Se o boleto traz controle, ele não elimina riscos. Pelo contrário: a pesquisa mostra que os riscos continuam presentes, muitas vezes invisíveis.
Um dado chama atenção:
6% dos boletos analisados estavam vinculados a CNPJs inexistentes ou divergentes da Receita Federal, somando cerca de R$ 2 bilhões em valores.
Ivan faz questão de destacar que isso não significa, automaticamente, fraude. Mas toda fraude começa com uma inconsistência ignorada.
O problema central não é apenas o erro em si, mas a falta de processos e rotinas capazes de identificar esses desvios antes do pagamento acontecer. No contas a pagar, o dinheiro sai do caixa. Depois disso, recuperar é sempre mais difícil.
Quando o contas a pagar vira um risco silencioso
Ao longo da conversa, fica claro que os problemas no contas a pagar raramente surgem de forma abrupta. Eles crescem aos poucos.
Empresas começam pequenas, com poucos pagamentos, controles simples e muito conhecimento tácito. À medida que crescem, aumentam:
- Volume de fornecedores
- Frequência de pagamentos
- Valor médio das transações
Sem ajustes de processo, o contas a pagar vira o famoso “sapo na água quente”: quando o risco aparece, já é grande demais.
Para Ivan, não existe um “momento mágico” em que o controle se torna necessário. O ideal é que ele exista desde o início, especialmente em empresas onde os sócios têm “skin in the game” — ou seja, o dinheiro que sai é, de fato, deles.
Um processo simples que evita muitos problemas
Entre os insights mais práticos do episódio está a ideia do “pagamento da semana”.
A lógica é simples:
- Definir um momento fixo da semana para revisar pagamentos
- Olhar apenas para o período que vai do dia seguinte até a próxima semana
- Separar pagamentos recorrentes de pagamentos fora do padrão
- Dar atenção especial a:
- Fornecedores novos
- Valores acima da média
- Nomes ou CNPJs desconhecidos
Esse ritual cria foco, reduz distrações e permite que o responsável pelo pagamento pare para pensar antes de executar.
Mais importante: ele devolve protagonismo ao contas a pagar, que deixa de ser apenas operacional e passa a atuar como guardião do caixa.
A falsa separação entre falha operacional e falta de caixa
Outro ponto forte do episódio é a provocação:
falha operacional e falta de caixa costumam ser o mesmo problema, visto por ângulos diferentes.
Atrasos, pagamentos emergenciais, multas e juros raramente acontecem “do nada”. Eles são consequência de:
- Falta de previsibilidade
- Dados desconectados
- Processos mal definidos
Quando o contas a pagar funciona no improviso, o caixa paga a conta.
Contas a pagar como área estratégica (e não só operacional)
Na pesquisa de percepção com os profissionais, aparece um dado interessante:
o contas a pagar já é visto como área estratégica, mas com processos imaturos.
Essa contradição ajuda a explicar por que tantas empresas reconhecem a importância do tema, mas ainda patinam na execução.
Ivan levanta uma hipótese importante: esse movimento tem relação direta com a reforma tributária.
Reforma tributária muda o jogo para compras e contas a pagar
Um dos insights mais relevantes do episódio é a conexão entre contas a pagar, compras e crédito tributário no novo modelo fiscal.
Com a reforma tributária, o crédito deixa de ser apenas um tema fiscal e passa a depender diretamente de:
- Quem é o fornecedor
- Qual regime tributário ele utiliza
- Como a operação foi estruturada
Na prática, compras e contas a pagar passam a ser guardiões do crédito tributário.
Se uma empresa compra de um fornecedor que não gera crédito — ou escolhe mal essa relação — o problema aparece depois, quando o imposto já foi pago e não há mais como corrigir.
2026 é o ano do preparo
Ivan reforça que 2026 é, oficialmente, um ano de testes. As novas tags fiscais já precisam ser utilizadas, mas ainda sem impacto financeiro direto.
Isso não reduz a importância do momento — pelo contrário.
É agora que as empresas precisam:
- Ajustar emissão e recebimento de documentos
- Mapear fornecedores
- Entender quem gera (ou não) crédito
- Criar rotinas entre compras, fiscal e financeiro
Quem deixar para 2027 corre o risco de aprender da forma mais cara possível.
Tecnologia não é mais opcional — mas precisa de processo
Ao falar sobre o futuro do backoffice, Ivan traz uma visão clara:
as áreas financeiras caminham para se tornar disciplinas de engenharia de dados regulada.
APIs, automações, integrações e análise de grandes volumes de dados deixam de ser exclusividade da TI. Mas isso não significa “copiar e colar código”.
O recado é direto: tecnologia sem entendimento do processo e da regra de negócio aumenta o risco, em vez de reduzi-lo.
O papel da colaboração (ninguém se prepara sozinho)
Talvez a mensagem final mais forte do episódio seja esta:
não adianta uma empresa estar preparada se seus fornecedores não estão.
A reforma tributária cria um efeito em cadeia. Se um elo falha, o impacto se espalha.
Por isso, compartilhar conhecimento, alinhar expectativas e elevar o nível do ecossistema não é altruísmo — é estratégia.
O que o Panorama de Contas a Pagar 2026 deixa claro
Ao final do episódio, fica evidente que o contas a pagar:
- Não é apenas operacional
- Não é apenas financeiro
- Não é apenas fiscal
Ele está no cruzamento entre caixa, risco, governança e estratégia tributária.
Empresas que enxergarem isso agora terão vantagem competitiva. As que ignorarem, pagarão a conta — com juros.
👉 Acesse o estudo completo e aprofunde os dados:
https://lp.qive.com.br/panorama-contas-a-pagar-2026/?utm_source=treasy
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