Existe um momento em que o profissional de finanças percebe que “fazer conta” já não é o suficiente. Não porque os números perderam valor, pelo contrário: eles continuam sendo a base da tomada de decisão. Mas porque, conforme a cadeira muda (e a responsabilidade aumenta), o impacto passa a depender de algo menos óbvio: gente.
No episódio #61 do Controller Cast, conversamos com Juliana Neri, Regional Senior Controller – Americas na HARTING Technology Group, sobre liderança, empatia, carreira e o papel da controladoria como parceira do negócio. E, ao longo do papo, uma mensagem apareceu com força de várias formas, e ficou explícita no recado final dela:
“Tenham foco nos dados, mas não se esqueçam das pessoas.”
— Juliana Neri
Abaixo você pode assistir o episódio na íntegra, ou ouví-lo no Spotify.
Neste artigo, resumimos os principais insights do episódio para você não perder nada.
Quem é Juliana Neri
A Juliana atua há mais de 18 anos na área financeira e de controladoria e ocupa atualmente a posição de Regional Senior Controller – Americas na HARTING Technology Group.
Além do trabalho executivo, ela também toca um projeto de conteúdo voltado a desenvolvimento profissional, com perfil no Instagram @jn.carreira.
Confira os principais insights compartilhados por Juliana:
Números importam, mas quem sustenta o orçamento são pessoas
Quando chega o período de orçamento (ou qualquer ciclo de pressão), a primeira reação do financeiro costuma ser técnica: mais análises, mais relatórios, mais reuniões. Só que a Juliana traz uma perspectiva diferente: o que faz um time atravessar a maratona não é um “pico de esforço” no mês do budget, mas uma base construída ao longo do ano.
Ela explica isso com uma imagem que é quase impossível não visualizar:
“É como se eu fosse depositando uma moedinha de energia nessa equipe ao longo do ano…”
— Juliana Neri
Ou seja: não é só sobre cobrar na reta final. É sobre manter proximidade, clareza e confiança antes da pressão chegar. E aí ela amarra o ponto central:
“Os números são importantes… mas por trás de tudo isso tem as pessoas.”
— Juliana Neri
Essa frase parece simples, mas muda a forma como a controladoria se posiciona. Porque, quando você aceita que o resultado passa por pessoas, surge uma pergunta inevitável: o que eu preciso desenvolver para liderar melhor?
E é aqui que o episódio entra em um segundo insight, que funciona como uma ponte natural para a evolução de carreira.
Humildade intelectual: crescer na carreira exige aprender (o tempo todo)
Quando a conversa vai para carreira, a Juliana não fala sobre um “passo a passo” rígido. Ela fala de mentalidade. E, talvez por isso, algumas frases dela ficam ecoando.
A primeira é sobre não ter medo de estar em ambientes onde você ainda não domina o assunto:
“Eu não tenho medo nenhum de ser a pessoa mais burra da mesa.”
— Juliana Neri
E isso não é nada sobre autodepreciação. É sobre estratégia: crescer mais rápido significa se colocar em contextos onde você aprende mais rápido. E ela complementa com uma observação que explica por que essa postura nunca “termina”:
“As mesas estão mudando o tempo todo.”
— Juliana Neri
Quando você junta esse ponto com o anterior, a lógica fica clara: se liderança é sobre pessoas e contexto, então a carreira em finanças precisa ir além do domínio técnico. Você precisa aprender a dialogar, a interpretar o cenário e a traduzir o número para decisão.
E isso puxa o próximo tópico do episódio: o lugar da controladoria dentro do negócio.
Controladoria como parceira do negócio: sair da planilha e entrar na operação
A Juliana aponta uma virada importante: a controladoria não pode ser percebida apenas como a área que “aponta o erro” ou “cobra o resultado”. Ela defende um posicionamento mais próximo da operação, mais útil, mais conectado com decisão.
Em um trecho direto, ela resume: “Controladoria tem que serparceiro do negócio.”
Essa frase tem consequências práticas. Ser parceira do negócio implica:
- Entender o que está por trás do número (não só o número);
- Antecipar perguntas (não só reagir a cobranças);
- Ajudar a decidir (não só reportar).
E quando a controladoria assume esse lugar, muda também o padrão de entrega. O que nos leva a um ponto que, no episódio, aparece como uma espécie de “músculo” de quem é estratégico: entregar mais valor do que o mínimo necessário — com intenção.
Rituais de liderança: como manter o time alinhado (inclusive no Home Office)
Um ponto sutil, mas forte, na fala da Juliana é que times não “entram em sintonia” por acaso. Existe uma construção contínua que sustenta o trabalho quando a pressão aperta.
No episódio, ela comenta sobre cadências de acompanhamento — incluindo encontros recorrentes e conversas individuais — como parte do jeito de manter o time coeso e com clareza do que importa.
A mensagem por trás disso é simples: liderança não é um evento; é uma prática repetida. Não é projeto, é processo! E essas rotinas são a base que torna possível aquele “depósito de energia” ao longo do ano.
Mas, à medida que a liderança cresce, surge um desafio inevitável: como manter essa proximidade e essa entrega sem virar gargalo?
É aqui que a conversa chega em um dos pontos mais “pé no chão” do episódio: delegação.
Delegação (de verdade): o antídoto para o burnout e para times que não evoluem
No bloco final do episódio, a Juliana compartilha um erro que ensinou mais do que curso: tentar dar conta de tudo.
“Esse foi querer dar conta de tudo… a gente não dá conta de tudo.”
— Juliana Neri
Ela fala sobre sobrecarga, sofrimento e queda de entregas — até aprender uma distinção que é quase uma regra de ouro para qualquer liderança:
“Delegar é diferente de delargar.”
— Juliana Neri
A diferença é prática. Delegar bem envolve clareza, acompanhamento e responsabilidade. “Delargar” é só transferir peso — e isso cria um problema novo em vez de resolver o antigo.
E a consequência de não delegar é dupla: você se esgota e impede que as pessoas cresçam. O que, voltando ao começo do episódio, enfraquece justamente o que sustenta o orçamento: o time.
Só que delegar bem também exige uma habilidade que muita gente no financeiro aprendeu “na prática”: empatia e adaptação.
O “overdelivery” que muda o patamar: entregar contexto, não só variação
Aqui, a Juliana fala de algo que todo mundo do financeiro conhece: muitas vezes você é acionado para “explicar um número”. Só que explicar não é a mesma coisa que ajudar a decidir.
Ela descreve uma postura de ir além do óbvio, pensando com a cabeça de quem pediu a informação: o que essa pessoa realmente precisa entender para agir?
E ela resume a diferença entre “o que qualquer sistema mostra” e “o que o financeiro estratégico entrega” com uma frase bem marcante:
“Falar que a despesa de viagem aumentou… qualquer ferramenta te dá.”
— Juliana Neri
O valor está no que vem depois: por que aconteceu, qual é o impacto, qual é a tendência, quais opções existem. Em outras palavras: o número é só a entrada — a entrega é a implicação.
Só que para manter esse padrão de entrega, não adianta depender de “inspiração”. É aí que entram os rituais e o episódio traz uma parte bem prática sobre rotina de liderança.
Um checklist prático (inspirado no episódio) para aplicar ainda este trimestre
Abaixo, um checklist bem prático, inspirado no que a Juliana descreve no episódio, sem “método mágico”, só o básico bem feito:
- Pergunte mais (e aceite não ser o mais “sabido” da sala).
A postura de aprendizado intencional aparece quando ela fala sobre não ter medo de ser “a pessoa mais burra da mesa” e de aprender com pessoas melhores. - Construa uma controladoria “útil” (não apenas correta).
O exemplo de ser “parceiro do negócio” e ajudar a empresa a ganhar projeto é uma provocação direta para sair do papel passivo. - Não entregue só “a variação do número”: entregue contexto e implicação.
O raciocínio do “overdelivery” e de “pensar com a cabeça do outro” é um ótimo norte para relatórios e reuniões com diretoria/C-level. - Crie rituais mínimos para sustentar o time (especialmente antes do orçamento apertar).
Ela mostra que as rotinas não são burocracia, são preparação para a pressão do budget. - Delegue com qualidade (ou você vira gargalo).
A fala sobre “delegar é diferente de delargar” e o alerta do burnout são um lembrete importante para quem está crescendo na liderança. - Coloque “cuidar de pessoas” na sua agenda como um trabalho real.
Porque, como ela diz no recado final, os dados importam, mas as pessoas movem a organização.
Quer se aprofundar? Ouça o episódio completo do Controller Cast #61
Se você trabalha com controladoria, FP&A, finanças corporativas ou está construindo um caminho de controller para CFO, este episódio é uma aula prática de liderança aplicada à realidade do financeiro.
🎧 Assista o episódio completo aqui
E se quiser acompanhar a Juliana, ela menciona no episódio o LinkedIn e o Instagram @jn.carreira.


Deixe um comentário
Você precisa estar logado para postar um comentário. Clique aqui para fazer o login