
Você sabe quanto custa cada canal de venda da sua empresa? Não o total (o canal). Sabe qual produto tem margem negativa escondida dentro de uma média que parece saudável? A maioria dos empreendedores não sabe, não porque os dados não existam, mas porque a estrutura que transforma dados em resposta nunca foi montada. É exatamente sobre isso que este webinar trata.
Gilles de Paula (Treasy), Flávio do Granato e Guilherme do Expresso se reuniram para uma conversa franca sobre modelagem econômica e financeira: como desenhar a estrutura da sua empresa antes de abrir a planilha, o que separa caixa de competência na prática e por que a contabilidade e o financeiro precisam falar a mesma língua.
O ponto de partida: desenhar antes de lançar
Antes de abrir qualquer sistema, o passo que os três convidados colocam como fundamental é o mesmo: desenhar a empresa no papel. Quais são os processos que nunca param (vendas, atendimento, produção) e quais são os projetos finitos (uma reforma, um novo site, uma nova linha)? Quem são as pessoas envolvidas, em qual área, com qual tipo de despesa associada?
Esse exercício quebra a ilusão de que a modelagem financeira é uma tarefa técnica de contador. Na prática, é um exercício de arquitetura de informação: você está decidindo como o dinheiro vai ser etiquetado enquanto circula dentro da empresa, e as etiquetas erradas geram relatórios que parecem corretos mas contam uma história diferente da realidade.
A empresa, simplificada, é formada por três tipos de recurso: ativos (equipamentos, máquinas, bens duráveis), pessoas (salários, encargos, benefícios) e fornecedores (serviços e matérias-primas). Todo processo e todo projeto consome combinações desses três. Quando você entende isso, o plano de contas deixa de ser uma lista intimidadora e vira o reflexo natural do funcionamento real do negócio. Para quem está montando a estrutura do zero, um modelo de plano de contas detalhado pode ser um bom ponto de partida.
A pirâmide que organiza a gestão financeira
Guilherme do Expresso trouxe uma estrutura que ajuda a entender por que tantas empresas pulam etapas e travam: a pirâmide dados, informação, conhecimento e sabedoria.
- Dados são os registros brutos: a entrada, a saída, o reembolso.
- Informação nasce quando você coloca estrutura nesses dados: um plano de contas bem definido transforma lançamentos soltos em algo que pode ser lido.
- Conhecimento é o que aparece quando você compara informações: qual canal vende mais, qual vendedor tem a melhor margem, qual produto come o lucro de outro.
- Sabedoria é olhar para frente, não para o passado: a partir do que você sabe, o que você vai fazer diferente no próximo mês?
O erro mais comum é querer chegar na gestão sem ter construído a base. Você não tem nem as métricas definidas, não sabe de qual ferramenta vem a informação, e aí a decisão acaba sendo tomada por feeling num cenário que poderia ser previsto. Esse é o atalho que leva ao buraco.
Para quem está começando, a sequência prática é: defina os procedimentos operacionais (o que será registrado, por quem, com qual nível de detalhe), operacionalize (faça o registro acontecer de forma consistente), depois venha a gerência e por último o planejamento. A ordem importa, e vale a pena ler mais sobre planejamento estratégico, tático e operacional para entender como cada camada se encaixa.
Custo ou despesa? A regra simples que organiza o DRE
Uma das perguntas mais recorrentes em qualquer empresa que começa a montar sua modelagem: o que é custo e o que é despesa? A resposta prática é direta.
Custo é tudo que está diretamente relacionado à sua operação final. Numa empresa de software, a equipe de suporte e de sucesso do cliente é custo, porque cresce proporcionalmente à base de clientes. Os servidores que hospedam o sistema são custo. Se você tirar esse elemento, o produto para de funcionar.
Despesa é tudo que não está ligado à operação final: o time administrativo, o RH, o aluguel do escritório, o jurídico. São necessários, mas não aparecem no produto.
Essa distinção importa porque ela determina como o DRE é montado, e um DRE com custos e despesas misturados esconde a margem real de cada produto ou serviço. Junto com essa distinção, entra o centro de custo: quando você paga o INSS, por exemplo, você paga um único boleto para o governo, mas parte desse valor é custo (time de suporte) e parte é despesa (time administrativo). Sem o centro de custo, você vê apenas o total e perde a capacidade de entender onde está gastando de verdade.
Caixa x competência: o dado que muda conforme a régua
Os três participantes citaram uma situação clássica que derruba muito profissional de finanças: o colaborador que viajou por três meses acumulando despesas e jogou todos os reembolsos no sistema em um único mês. Pelo regime de caixa, parece que aquele mês foi catastrófico. Pelo regime de competência, as despesas estão distribuídas corretamente nos três meses em que ocorreram.
Nenhum dos dois regimes está errado. Eles simplesmente respondem perguntas diferentes. O caixa responde "quanto entrou e saiu hoje?". A competência responde "a qual período essa despesa pertence?". A confusão entre os dois é uma das origens mais comuns de distorções nas análises financeiras.
O mesmo vale para entender como o demonstrativo de fluxo de caixa se relaciona com o DRE: eles mostram visões diferentes da mesma empresa, e as diferenças entre eles são informativas, não erros.
Três visões da mesma empresa
Um ponto que o webinar destaca com clareza: a mesma empresa pode ser modelada de formas diferentes dependendo de quem está olhando.
- O financeiro quer saber se as contas serão pagas, se os clientes estão pagando, se o caixa vai sustentar o mês.
- O contador está preocupado com a apuração correta do lucro e o cálculo dos impostos, trabalhando pelo regime de competência com foco nas obrigações fiscais.
- A visão gerencial é uma terceira modelagem, montada para que quem gere o negócio entenda a empresa por dentro: margens por produto, resultado por canal, peso de cada centro de custo.
O Granato chegou a quase quebrar por confiar na contabilidade para apurar lucros sem ter a visão gerencial própria. Distribuíram resultado ao longo de um ano e meio baseados em números incorretos. A solução foi unificar as visões: um único plano de contas que tanto o financeiro quanto a contabilidade usam, com o de-para feito de forma estruturada. Isso elimina a versão do telefone sem fio, onde um mesmo número significa coisas diferentes dependendo de quem está falando.
A tabela: o que cada regime responde
| Visão | Foco principal | Período de referência | Quem usa mais |
|---|---|---|---|
| Regime de caixa | Liquidez: o que entrou e saiu de fato | Data do pagamento/recebimento | Financeiro, tesouraria |
| Regime de competência | Resultado: a qual período pertence a despesa | Data de ocorrência do fato | Contabilidade, DRE gerencial |
| Visão gerencial | Gestão: margens, centros, canais | Ambos, conforme necessidade | Controladoria, liderança |
| Planejamento orçamentário | Decisão: o que vai acontecer e o que fazer | Futuro (mensal, anual, rolling) | Controller, CFO, CEO |
Modelar antes de investir poupa mais do que qualquer corte de custo
Um dos casos mais marcantes do webinar vem de um empreendedor do setor de cereais que chegou com a ideia de uma nova barrinha de proteína pronta para o mercado: embalagem, ingredientes, distribuidor. Duas horas de modelagem financeira mostraram que quanto mais ele vendesse, mais dinheiro perderia, porque o custo dos ingredientes que os atletas queriam não cabia no preço que o mercado aceitava pagar.
Essa é a função central da modelagem econômico-financeira: matar a ideia ruim no papel antes que ela mate a empresa na realidade. O mesmo exercício que evitou aquele prejuízo é o que fundamenta um planejamento orçamentário sólido, seja numa startup ou numa empresa com décadas de mercado.
A modelagem começa sempre com as mesmas perguntas: quantas unidades vou vender e por qual preço? Quais os ingredientes ou insumos e qual o custo unitário? Que pessoas e ativos preciso para operar? Quais são os fornecedores e o que pagarei por eles? Colocando as respostas em ordem, você chega numa projeção de resultado que confirma ou mata o plano antes de qualquer desembolso.
O papel da automação depois que a estrutura está certa
Guilherme fechou o webinar com uma sequência que resume bem toda a conversa: desenha, informa, simplifica e automatiza. A ordem importa porque automatizar uma estrutura errada é construir uma máquina de produzir confusão em escala.
Quando a estrutura está certa, a automação libera quem está na ponta (o vendedor, o viajante corporativo, o gestor de área) de precisar entender o plano de contas. Ele lança "almoço com cliente" e o sistema, por trás, classifica corretamente no centro de custo, na natureza contábil e no projeto correspondente. O dado chega estruturado, a informação fica disponível em tempo real e a gestão deixa de ser uma tarefa mensal de reconciliação para se tornar um painel permanente.
Essa integração entre ferramentas especializadas é o que transforma o planejamento e controle orçamentário de uma tarefa pontual numa rotina viva. Com o planejado e o realizado sempre visíveis, você vê o desvio aparecer no meio do mês, não só no fechamento.
O que a contabilidade e o financeiro podem fazer juntos
A conversa trouxe uma crítica honesta ao mercado contábil, mas também mostrou o caminho: a contabilidade que só emite guias e fecha obrigações acessórias perdeu uma oportunidade enorme. A que senta com o empreendedor, analisa o balancete junto, aponta o número estranho e ajuda a construir o planejamento orçamentário se torna um parceiro estratégico irreversível.
O movimento que já aconteceu no mercado americano, onde o contador virou controller, está chegando. As partes operacionais estão sendo automatizadas. Quem souber usar isso para subir na pirâmide, do dado para a sabedoria, vai ocupar um lugar que nenhum software substitui. Se você é contador ou trabalha com controladoria, vale pensar em como esse posicionamento já começa hoje.
Para os empreendedores, a mensagem final do Flávio resume bem: compare-se com você mesmo. Os números mostram se você está 1% melhor do que estava, e às vezes 1% já é muito. Quando quiser sair da planilha e ter esse planejado e realizado sempre atualizado com os dados do seu ERP, experimente o Treasy gratuitamente e veja quanto mais simples fica tomar decisões com a estrutura certa montada.
![Capa do vídeo: [WEBINAR] Modelagem Econômica e Financeira: estruture suas estratégias de negócio!](https://i.ytimg.com/vi/74IyMlFKJy4/hqdefault.jpg)