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Apuração de haveres: o valuation na saída do sócio

Na dissolução societária, o método de valuation muda tudo. Saiba por que a apuração de haveres usa patrimônio líquido ajustado, não projeção futura.

Neste artigo

Balanca solida em equilibrio com uma pilha de moedas douradas de um lado, representando a apuracao de haveres na saida do socio

Se um sócio seu avisar amanhã que quer sair, sua primeira pergunta vai ser "quanto ele vale?". A segunda, que pouca gente faz a tempo, decide o tamanho do cheque: "com qual método a gente chega a esse número?" Acertar isso protege o seu caixa e a relação com quem fica. Errar pode custar caro para os dois lados da mesa.

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Capa do vídeo: Sócio saindo? O valuation muda (e o futuro não é dele)Vídeo · YouTube

A definição que muda tudo

Apuração de haveres é o processo de determinar o valor devido a um sócio que se retira da empresa, calculado sobre o patrimônio líquido ajustado a valor de mercado na data da resolução societária, sem incluir projeções de crescimento futuro que ele não vai participar.

No vídeo, o especialista resume o princípio em uma frase: o objetivo da avaliação altera o método a ser utilizado. E completa com a ideia que dá nome a este post, falando do sócio que sai: "o futuro não lhe pertence mais". A partir daqui, aprofundamos o contexto perene por trás dessa frase.

Por que a mesma empresa tem valuations diferentes

Você pode avaliar a mesma empresa com três objetivos distintos e chegar a três números completamente diferentes. Isso não é imprecisão. É a metodologia funcionando corretamente.

Quando o objetivo é atrair um investidor ou vender o negócio, o método mais utilizado é o fluxo de caixa descontado, que projeta os resultados futuros e os traz a valor presente com uma taxa de desconto. O valor capturado aí inclui todo o potencial de crescimento que ainda está por vir.

Quando o objetivo é apurar os haveres de um sócio que está saindo, esse mesmo método seria tecnicamente incorreto. O sócio contribuiu para gerar o valor da empresa até a data da dissolução. A partir daí, ele não carrega mais risco, não participa dos lucros, e não vai colher os frutos do crescimento futuro. Usar projeções de receita para calcular o que ele recebe seria pagar a ele por algo que pertence aos sócios que ficam.

Por isso, a gestão baseada em valor tem metodologias distintas para fins distintos. Saber qual aplicar em cada situação é parte do trabalho do profissional de controladoria estratégica.

Patrimônio líquido ajustado a valor de mercado

O método adequado para a apuração de haveres parte do patrimônio líquido contábil, mas com um ajuste essencial: cada ativo e cada passivo é reavaliado pelo valor que teria no mercado hoje, não pelo custo histórico registrado no balanço.

Esse ajuste muda o resultado de forma significativa. Um imóvel comprado há dez anos pode estar registrado por um valor muito diferente do preço de mercado atual. Uma marca consolidada, uma carteira de clientes recorrentes ou um software desenvolvido internamente podem não aparecer no balanço contábil, mas têm valor real e mensurável.

Para cada tipo de intangível identificado, existe uma metodologia específica. Por exemplo: uma marca pode ser avaliada pelo método de royalties (também chamado de relief from royalty), que estima quanto a empresa economiza por não precisar licenciar a marca de terceiros. Uma carteira de clientes recorrentes é avaliada pelo método de excesso de ganhos multiperiodo (multi-period excess earnings), que isola o retorno atribuível especificamente a esse ativo.

Passivos contingentes, como processos judiciais em andamento ou obrigações fiscais ainda não lançadas no balanço, também entram no cálculo. O resultado final é uma foto da empresa no momento da saída, sem a névoa das projeções.

O papel da contabilidade gerencial na dissolução societária

Uma dissolução societária bem conduzida começa muito antes da saída. Ela começa quando a empresa decide manter uma gestão financeira empresarial organizada e uma governança financeira consistente no dia a dia.

Quando os registros são confiáveis, o processo de avaliação tem uma base sólida. O avaliador encontra um balanço patrimonial atualizado, contas classificadas com clareza, ativos identificados e passivos contingentes mapeados. A conversa sobre o quanto o sócio deve receber começa de um ponto técnico, não de um conflito sobre o que está ou não registrado.

Empresas sem controle financeiro estruturado chegam a esse processo com desvantagem. A falta de dados confiáveis abre espaço para disputas que se arrastam por anos, muitas vezes terminando em perícia contábil judicial.

Manter a contabilidade gerencial alinhada com a realidade do negócio não serve apenas para o acompanhamento do planejamento e orçamento. Serve também como proteção nos momentos mais sensíveis da vida societária.

Quem toca esse processo na empresa

A apuração de haveres envolve pelo menos três perfis: um avaliador independente (contador, auditor ou perito com experiência em valuation), os advogados societários responsáveis pelo contrato social e o profissional de controladoria que fornece os dados financeiros base.

O financeiro da empresa, mesmo que não seja o avaliador principal, tem papel crítico: organizar as informações, cruzar os números com os registros contábeis e garantir que os intangíveis relevantes estão identificados. Um controller que conhece bem o negócio consegue antecipar os pontos de atrito antes que o processo formal comece.

Para empresas que trabalham com gestão do cap table e stock options, a clareza sobre a metodologia de saída deve estar prevista nos acordos de acionistas desde o início, antes que qualquer sócio cogite sair.

Referência rápida: métodos por objetivo

Objetivo da avaliação Método principal Foco temporal Inclui crescimento futuro?
Captação de investimento Fluxo de Caixa Descontado (DCF) Futuro Sim
Venda da empresa DCF ou múltiplos de mercado Futuro Sim
Apuração de haveres (saída de sócio) Patrimônio líquido ajustado a valor de mercado Presente (data da saída) Não
Avaliação de marca Relief from Royalty Presente Não (isolado)
Avaliação de carteira de clientes Multi-period Excess Earnings Presente Não (isolado)
Garantia bancária ou laudo judicial Patrimônio líquido contábil ou ajustado Presente Não

O que preparar antes que a saída aconteça

Independente do cenário, alguns dados precisam estar disponíveis para que qualquer avaliação de dissolução seja conduzida com rigor. O controle financeiro do dia a dia é o que torna isso possível.

Entre os itens que o financeiro deve ter organizados: balanço patrimonial atualizado e auditado, lista de intangíveis com histórico de investimento (marca, software, patentes, contratos de exclusividade), passivos contingentes mapeados com probabilidade de realização, e inventário de ativos físicos com laudos de avaliação recentes quando o custo histórico estiver muito defasado.

Para estruturar essa base, um modelo de valuation ajuda a organizar os dados antes de qualquer avaliação formal. Empresas que adotam governança de dados financeiros consistente chegam a esse processo com semanas de trabalho a menos. As que não têm chegam com disputas que duram anos.

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Perguntas frequentes

Por que o método de valuation muda quando um sócio está saindo?
Porque o objetivo da avaliação é diferente. Na saída de um sócio, o que se quer apurar são os haveres dele até aquele momento, não o potencial futuro da empresa. Como ele não vai mais participar dos lucros nem dos riscos dali em diante, usar um método baseado em projeções futuras seria tecnicamente inadequado.
O que é apuração de haveres?
É o processo de calcular o valor que cabe ao sócio que está saindo da empresa, considerando sua participação no patrimônio construído até a data da dissolução societária.
Qual método é usado na apuração de haveres?
O mais utilizado é o patrimônio líquido ajustado a valor de mercado: parte-se do balanço contábil, mas cada ativo e passivo é reavaliado pelo que vale hoje, não pelo custo histórico registrado.
Por que o patrimônio líquido contábil não basta?
Porque o balanço contábil registra os ativos pelo custo de aquisição, não pelo valor atual. Imóveis, equipamentos e, principalmente, intangíveis como marca e carteira de clientes costumam ter valor de mercado bem diferente do que aparece nos livros.
O que são passivos contingentes e por que entram na apuração?
São obrigações que ainda não foram registradas contabilmente, como processos trabalhistas ou fiscais em andamento. Eles reduzem o valor real da empresa e precisam ser considerados para que a apuração reflita a situação real no momento da saída.
Como intangíveis são avaliados numa dissolução societária?
Cada tipo de intangível tem uma metodologia específica. Marcas são avaliadas pelo método de royalties (relief from royalty). Carteiras de clientes recorrentes usam o multi-period excess earnings. O avaliador escolhe o método mais adequado para cada ativo identificado.
O fluxo de caixa descontado (FCD) pode ser usado na saída de um sócio?
Na maioria dos casos, não é o método mais indicado. O FCD projeta o valor futuro da empresa, que o sócio que está saindo não vai colher. Usá-lo favoreceria indevidamente quem sai, ou geraria disputas sobre premissas de crescimento que ninguém pode garantir.
Como a empresa pode se preparar antes de uma dissolução societária?
Mantendo o balanço patrimonial atualizado e auditado, com as contas classificadas de forma clara, e documentando os intangíveis identificáveis. Empresas com boa governança financeira chegam a esse processo com muito menos atrito.

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