
Imagine uma empresa que esteja gerando lucro constante, fruto do crescimento nas vendas. Aos olhos dos gestores, isso é motivo de comemoração. Mas a celebração acaba quando o controller mostra um dado incômodo: a rentabilidade ficou abaixo do WACC (custo de capital).
Como muitos gestores não são da área financeira, o controller explicou de um modo mais simples: embora a empresa esteja vendendo mais e gerando lucro, ela não está gerando valor. “E como isso é possível?”, perguntou um dos gestores.
O que aconteceu nesse exemplo fictício não é um caso isolado. Existem muitas organizações que passam por uma situação parecida, ou seja, números positivos no demonstrativo de resultados, mas destruição de valor quando se compara a rentabilidade ao custo de capital.
É justamente para entender e corrigir esse tipo de distorção que existe a Gestão Baseada em Valor. Essa abordagem coloca no centro da análise aquilo que realmente importa: será que a empresa está, de fato, criando riqueza para seus acionistas e investidores?
A seguir, vamos entender melhor o conceito e por que ele é tão relevante para quem está à frente do planejamento financeiro e da controladoria.
- 1 - Olhe para o Fluxo de Caixa Operacional
- 2 - Defina métricas de valor
- ROIC
- WACC
- EVA (Economic Value Added)®
- NOPAT/NCG
- 3 - Alinhar planejamento, orçamento e metas à geração de valor
O que é Gestão Baseada em Valor?
A Gestão Baseada em Valor (GBV) - também conhecida pela sigla inglesa VBM, de Value Based Management - é uma estratégia de gestão que busca aumentar a capacidade da empresa de gerar riqueza no longo prazo.
E o que significa “gerar riqueza”? Ao longo deste conteúdo explicaremos para você, mas já para se situar, entenda que, de acordo com a McKinsey, empresas só constroem valor sustentável quando equilibram crescimento e retorno sobre capital, garantindo que o ROIC supere consistentemente o WACC.
Abrindo parênteses, ROIC é o retorno sobre o capital investido. Ele mostra quanto a empresa gera de lucro operacional após impostos (NOPAT) em relação ao capital investido nas operações (capital próprio + dívida operacional). Em termos práticos, é como medir “quanto cada real investido no negócio está rendendo”.
Já o WACC é o custo médio ponderado de capital. Ele considera o custo do dinheiro que vem de diferentes fontes, como empréstimos, financiamentos e capital dos acionistas. Na prática, é a taxa mínima que a empresa precisa entregar de retorno para não destruir valor.
Voltando ao conceito de Gestão Baseada em Valor, ele foi popularizado na década de 1990 por consultorias como a Stern Stewart & Co., que difundiram o indicador EVA® (Economic Value Added) como forma de medir a geração de valor econômico.
Dica Treasy: se você não está familiarizado com os indicadores citados até aqui, não se preocupe. Mais abaixo explicaremos cada um deles para você.
Gestão Baseada em Valor: limitações do EBITDA
Para entender bem o que é a Gestão Baseada em Valor, vamos dar uma olhada no que NÃO é GBV.
Quando o tema é gerar valor e riqueza, muitos gestores associam a performance da empresa ao EBITDA. Apesar de ser útil, ele conta a história pela metade. É como se você ficasse sabendo de algo que aconteceu na sua vizinhança, mas por meio de três pessoas diferentes, que contam partes distintas do ocorrido. Nesse caso, cada um traz um pedaço da informação, mas ninguém mostra o quadro completo.
Com o EBITDA é mais ou menos isso que acontece. Para entender, esse indicador (conhecido em português como LAJIDA) mostra a capacidade de geração de caixa operacional antes de impostos, juros e depreciação. Ele é indicado e muito utilizado para comparações entre empresas e setores. No entanto, ele não considera o custo de capital, que é o WACC.
Por conta disso, é muito comum empresas com um EBITDA alto, mas com um caixa que mostra uma outra realidade. Como explicamos em “Por que meu EBITDA não vira caixa”, esse indicador retrata o potencial de geração de resultado da operação, mas não revela se há liquidez suficiente para pagar fornecedores, salários ou impostos.
E mais! Mesmo quando a empresa consegue transformar parte desse EBITDA em caixa, ainda falta responder à pergunta central: esse retorno cobre o custo do capital investido?
É aqui que o EBITDA mostra sua principal limitação, uma vez que ele não mede se o negócio está realmente criando valor econômico.
E o Lucro Líquido?
Uma Gestão Baseada em Valor não se resume ao EBITDA, como também não está relacionada apenas ao Lucro Líquido (LL). Para muitos, isso pode parecer uma surpresa, já que o LL aparece no Demonstrativo de Resultados de Exercício (DRE) e mostra o “lucro que sobrou”.
Então, por que o Lucro Líquido não é sinônimo de geração de valor? O fato é que ele não responde se a empresa conseguiu remunerar adequadamente o capital investido. Isso porque uma organização pode fechar o ano com lucro líquido positivo, mas ainda assim estar destruindo valor econômico se o retorno obtido for menor do que o custo de capital investido.
👉 5 estratégias de orçamento para controllers que querem ir além do básico
Benefícios da Gestão Baseada em Valor
A Gestão Baseada em Valor não atua no curto prazo, pois seu objetivo é otimizar a geração de caixa futura. Para isso, como você viu até aqui, a empresa que adota a GBV não corre atrás do lucro contábil somente, mas sim, busca a criação de valor econômico sustentável. Isso traz diversas vantagens como:
- Decisões mais alinhadas à realidade econômica: empresas que buscam a geração de valor têm um olhar diferenciado, pois não miram apenas no lucro. Elas entendem que projetos e investimentos somente devem seguir se tiverem potencial para gerar retorno acima do custo de capital investido.
- Melhoria da alocação de recursos: sejam recursos humanos, operacionais ou financeiros, a alocação é direcionada para gerar valor. Ou seja, a organização tem mais eficiência na hora de alocar capital, evitando a dispersão de esforços.
- Transparência com investidores e stakeholders: empresas que adotam a GBV transmitem clareza sobre a real performance da empresa, fortalecendo a confiança do mercado e dos parceiros.
- Incentivos estratégicos: metas baseadas em valor, não só em lucro, incentivam gestores e colaboradores a pensarem no longo prazo.
Como implementar a Gestão Baseada em Valor na prática?
Por mais óbvio que isso possa parecer, a Gestão Baseada em Valor busca gerar….valor. Como você viu até aqui, isso vai muito além de atingir metas de EBITDA e obter lucro líquido. Na sequência, damos três dicas para você aplicar a GBV na sua empresa:
1 - Olhe para o Fluxo de Caixa Operacional
O Fluxo de Caixa Operacional revela o volume de dinheiro que a empresa efetivamente movimentou em suas atividades do dia a dia em um período específico.
O detalhe importante está no termo “operacional”: ele se refere apenas às atividades ligadas diretamente à operação principal da empresa. Ou seja, entram nessa conta as entradas de vendas e as saídas relacionadas a custos de produção, pagamento de salários, fornecedores e demais despesas ligadas ao funcionamento regular do negócio.
Olhar para o FCO é fundamental dentro da Gestão Baseada em Valor porque ele mostra se a empresa tem capacidade de gerar recursos de forma recorrente com a sua operação principal. Como comentado, valor só é criado quando o retorno obtido com o capital investido é maior que o custo desse capital. Mas, para que isso aconteça, a operação precisa ter fôlego financeiro, certo? E aí entra a importância da análise do FCO.
2 - Defina métricas de valor
Antes de qualquer coisa, entenda que não estamos aqui dizendo para você parar de olhar para o EBITDA. Continue analisando-o, mas não esqueça do FCO e de avaliar conjuntamente as métricas que têm muito mais a ver com geração de valor. São elas:
ROIC
O ROIC (Return on Invested Capital) é um dos indicadores mais importantes para entender se uma empresa está realmente criando valor. Isso acontece porque ele conecta performance operacional e retorno econômico.
Em termos práticos, o ROIC mede quanto a organização consegue gerar de retorno em relação a todo o capital investido, tanto o capital próprio, dos acionistas, quanto o capital de terceiros, como empréstimos e financiamentos. Empresas que apresentam ROIC consistentemente acima do WACC tendem a ser mais sólidas, sustentáveis e atrativas para o mercado.
Para entender mais sobre ROIC e como calculá-lo, leia também:
WACC
WACC (Weighted Average Cost of Capital) é a taxa mínima de retorno que uma empresa precisa gerar para que seu negócio não destrua valor. Em outros termos, representa o “preço” que a organização paga para utilizar capital próprio e de terceiros.
Enquanto o ROIC mostra quanto a organização conseguiu entregar de retorno, o WACC funciona como a régua de comparação: se o ROIC for maior que o WACC, há criação de valor; se for menor, há destruição.
Se você reparou bem, até aqui citamos algumas vezes o WACC ou o custo de capital. Não é para menos: o WACC é o ponto de referência da Gestão Baseada em Valor. Ele funciona como o “custo mínimo” que qualquer investimento ou projeto deve superar. Se a empresa investe em um novo produto, por exemplo, e o retorno projetado é inferior ao WACC, o projeto pode até gerar lucro contábil, mas não criará valor econômico.
Temos um conteúdo bem completo sobre o tema. Acesse-o em:
👉 O que é WACC e por que ele importa na gestão financeira?
EVA (Economic Value Added)®
O EVA é um indicador que mostra se, além de dar lucro contábil, uma empresa está realmente criando valor para seus acionistas. Ele surgiu a partir da necessidade de medir mais que margens ou crescimento, pois seu objetivo é demonstrar se o negócio gera retorno acima do custo total do capital investido.
Esse é um indicador muito poderoso na Gestão Baseada em Valor, porque força a empresa a considerar o custo total do capital, não só o financeiro ou contábil. Isso evita ilusões de lucro onde, no papel, tudo vai bem, mas economicamente a empresa está destruindo valor.
Em suma, o EVA mostra se a empresa está criando ou destruindo valor, comparando ROIC e WACC.
Saiba mais sobre EVA em:
👉 EVA, ou Economic Value Added: o que é Valor Agregado e como calcular o EVA?
NOPAT/NCG
NOPAT (Net Operating Profit After Taxes) é o Lucro Operacional Líquido Após Impostos. Ele mostra quanto sobra efetivamente do resultado das operações principais do negócio depois da incidência dos impostos.
Já o NCG é a Necessidade de Capital de Giro, ou seja, como explicamos neste outro conteúdo, é “o valor mínimo que uma empresa precisa ter de dinheiro em seu caixa para garantir que sua operação (compra, produção e venda de produtos ou serviços) não pare por falta de recursos.” Desse modo, quanto maior o NCG, mais capital a empresa precisa disponibilizar no ciclo operacional.
Ao dividir o NOPAT pela Necessidade de Capital de Giro (NCG), temos um dos melhores termômetros da eficiência operacional usado como métrica gerencial. Esse cálculo mostra quanto a empresa consegue gerar de lucro operacional líquido, após impostos, em relação aos recursos que precisa manter imobilizados para sustentar suas atividades do dia a dia.
Para a GBV, essa relação reforça a lógica de que não basta vender mais. É preciso garantir que a operação esteja usando bem os recursos necessários para se manter.
3 - Alinhar planejamento, orçamento e metas à geração de valor
Apesar de citarmos indicadores, tenha em mente que a Gestão Baseada em Valor não se resume ao cálculo de métricas. Para que ela traga resultados, o planejamento estratégico, o orçamento anual e as metas de cada área estejam conectados à criação de valor econômico.
Além disso, pode ser preciso:
- Revisitar o modelo de precificação para garantir margens compatíveis com o custo de capital;
- Analisar a estrutura de custos e identificar oportunidades de redução sem comprometer a eficiência (leia também: Caçando os “gatos gordos”: a importância do SG&A);
- Revisar políticas de estoque e capital de giro, para liberar recursos imobilizados;
- Avaliar investimentos planejados (novos produtos, expansão, tecnologia) com base no potencial de ROIC acima do WACC.
Dica Treasy: se tudo que você leu até aqui fez sentido e você quer ir um pouco além, assista ao episódio #58 do Controller Cast com Marcelo Luz Alves, consultor de empresas, professor de MBA e sócio fundador da Apolo Value Investing. Na conversa, ele aborda a necessidade de as empresas olharem para os indicadores corretos e não caírem em armadilhas (como a de se basear somente em EBITDA).
Assista ao bate-papo Gestão Baseada em Valor: uma alternativa ao EBITDA na hora de avaliar desempenho. Dê o play abaixo:
Conclusão
A Gestão Baseada em Valor parte do princípio de que é preciso garantir que cada real investido no negócio esteja gerando retorno acima do custo de capital. Na prática, adotar a GBV é alinhar planejamento, orçamento e metas à geração de valor econômico, baseando-se em métricas que realmente revelam se a empresa está criando riqueza sustentável: ROIC, WACC, EVA®, NOPAT/NCG e Fluxo de Caixa Operacional.
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