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Crise da pandemia na gestão das empresas: o painel

Painel com 3 empresários revela como comércio, serviços e indústria reagiram à crise da pandemia: dados de 751 empresas, caixa, cortes e aprendizados reais.

Neste artigo

Crise da pandemia na gestão das empresas representada por um escudo protegendo moedas

Em abril de 2020, 28% das empresas de comércio relataram queda de mais de 50% no faturamento. No setor de viagens corporativas, uma empresa chegou a 95% de queda em um único mês. Esses não são cenários hipotéticos: são os números de uma pesquisa com 751 respondentes reais, apresentados ao vivo com três empresários que viveram cada um desses cortes na pele.

Este painel reúne dados quantitativos do segundo trimestre de 2020 com relatos detalhados de quem teve que tomar decisões em tempo real, sem manual de instrução e sem precedente recente. O que foi feito, o que teria sido feito diferente e o que essas empresas planejavam para o segundo semestre.

Capa do vídeo: Painel Online: Impactos da Crise da Pandemia na Gestão das EmpresasVídeo · YouTube

O que os números disseram sobre o Q2 de 2020

A pesquisa ouviu 751 profissionais com cargo de influência direta nos resultados das empresas: sócios, donos, diretores, gerentes e controladores. Dois terços das respostas vieram de cargos de decisão direta.

O foco foi deliberadamente estreito: impacto no faturamento e no quadro de funcionários. São as duas variáveis que qualquer empresa enfrenta, independentemente do setor ou porte.

Faturamento por setor (comparado a março de 2020):

  • Em abril, cerca de 25% das empresas de comércio, indústria e serviços reduziram mais de 50% do faturamento.
  • Em maio, a faixa de queda superior a 50% se manteve próxima, mas começaram a aparecer empresas com crescimento acima de 50%, especialmente em telecomunicações.
  • Em junho, a tendência se repetiu: a fatia com queda severa permaneceu estável, mas o número de empresas em crescimento aumentou.

Quadro de funcionários:

  • Entre 60% e 70% das empresas mantiveram o quadro inalterado nos três meses.
  • As demissões que ocorreram foram concentradas em abril e maio. Em junho, esse movimento praticamente cessou.
  • O setor mais impactado em ambas as análises foi o de turismo. O setor de hospitais e laboratórios foi o que mais se destacou no crescimento.
Mês Empresas com queda >50% Empresas com crescimento >50% Quadro inalterado
Abril/2020 ~25% (comércio: 28%, indústria: 25%, serviços: 24%) Muito tímido 60–70%
Maio/2020 ~20–22% ~5% (começou a aparecer) 60–70%
Junho/2020 Similar a maio Cresce (telecom e têxtil em destaque) 60–70% (demissões cessaram)

Três empresas, três realidades

Costa Brava Viagens: 95% de queda e a decisão de não esperar

Rubens, diretor-geral da Costa Brava, uma agência de viagens corporativas com 120 colaboradores pré-crise, foi o caso mais extremo do painel. A empresa atendia multinacionais e dependia de deslocamentos internacionais para faturar.

O sinal veio antes do impacto. Participando do board da aliança global de agências, Rubens observou em fevereiro de 2020 que executivos na Ásia e Europa já tinham proibição de viagens internacionais. Em meados de fevereiro, antes de o vírus chegar com força ao Brasil, ele começou a agir.

As decisões tomadas antes de março: - Formação de comitê de crise com financeiro, RH e operações. - Projeção do impacto no quadro necessário e corte de 20% dos colaboradores com baixo desempenho. - Migração para home office em dois dias (a empresa já operava com tecnologia mobile-first e espaço compartilhado). - Divisão dos principais fornecedores entre os sócios para renegociação direta, reduzindo mais de 50% dos custos fixos em 20 dias. - Negociação sindical antes da MP 936, com redução de 50% de jornada desde abril para todos os funcionários.

Março fechou com 50% de queda. Abril chegou a 95% de queda no volume de negócios. Julho ainda estava em 80% de queda. O setor de turismo corporativo, segundo Rubens, só voltaria com vacinação em massa.

Rota Exata: pessimismo excessivo que se provou errado

Eric, da Rota Exata (rastreamento veicular com cerca de mil clientes), teve uma trajetória diferente. A empresa fez projeções pessimistas de 30% de cancelamento da base, que caiu para 20%, depois para 10%. Nenhum desses cenários se confirmou.

O que aconteceu: a maioria dos cancelamentos não veio de insatisfação com o serviço, mas de pânico. Clientes pediam negociação, não cancelamento. E ao mesmo tempo em que parte da base reduzia a frota, empresas de logística, distribuidoras de alimentos e transportadoras (setores que atuavam durante a pandemia) aumentaram as frotas, gerando novas contratações.

Resultado: o faturamento e os recebimentos da Rota Exata não sofreram redução real ao longo do período. O único custo real foi o congelamento do plano de expansão e a demissão dos novos contratados para essa expansão que havia sido planejada.

Who Live Alimentação: queda de 20%, caixa projetado e refeições para o setor público

Rodrigo, diretor administrativo-financeiro da Who Live (serviço de refeições coletivas, 170 funcionários, 15 mil refeições por dia), enfrentou uma queda de 20% no faturamento na segunda quinzena de março. O impacto foi concentrado nos clientes corporativos que foram para home office.

As ações da empresa: - Comunicação diária com os clientes para ajuste de demanda em tempo real. - Suspensões de contrato e reduções de carga horária para o quadro operacional, mantendo a equipe administrativa e de coordenação. - Uso de todos os mecanismos governamentais disponíveis: suspensão de contratos, parcelamento de encargos (INSS, PIS, COFINS). - Renegociação de aluguel: primeira tentativa em abril resultou em recusa. Em maio, com mais informação e mais objetividade, conseguiu 40% de desconto por três meses. - Projeção de caixa até o final do ano com os parcelamentos programados.

Julho foi o mês mais forte do período, com o retorno gradual das empresas. A empresa não precisou recorrer a crédito externo.

O que cada um teria feito diferente

Esta foi a parte mais direta do painel. Três respostas distintas que revelam padrões comuns.

Rubens (Costa Brava): teria feito um corte de headcount ainda maior em março. Com a adesão à MP 936, a estabilidade de emprego ficou cara. A janela de decisão foi estreita. O que ele fez certo: agir antes que a crise chegasse ao Brasil, baseado em dados do board internacional.

Eric (Rota Exata): perdeu tempo tentando prever o futuro. Os planos detalhados de quais setores iriam aquecer foram corretos na análise, mas inaplicáveis na execução. As distribuidoras de alimentos estavam tão ocupadas com o aumento de demanda que não tinham tempo para "arrumar a casa". O que funcionou foi levantar a cabeça e dizer "estamos disponíveis para quem nos procura".

Rodrigo (Who Live): teria ido à negociação do aluguel com mais agressividade já em abril, antes de entender o tamanho da crise. A velocidade nas negociações de custo fixo faz diferença quando o caixa está sob pressão.

Caixa: a variável que separa quem aguenta de quem não aguenta

Um tema que emergiu organicamente no painel foi a gestão de caixa em crise. Rubens trouxe uma prática concreta: identificou uma linha de crédito subsidiada pelo BNDES com taxa efetiva de 0,4% ao mês, captou mais de 1 milhão de reais e aplicou em uma carteira de investimentos que rendia 3,5% ao mês. O resultado: um colchão de caixa com custo praticamente zero, disponível se necessário e gerando retorno enquanto não era usado.

A lógica descrita foi pragmática: "dinheiro você não pega quando você quer, você pega quando tem". Se a linha existe com custo baixo, a decisão correta é captá-la e aplicá-la, não esperar precisar e não encontrar.

A frase que resume essa visão: todos estavam na mesma tempestade, mas em barcos diferentes. Margem, caixa, estrutura de custos e perfil de cliente são variáveis que tornam cada situação diferente. Generalizações sobre o que "as empresas deveriam fazer" ignoram essa realidade.

Isso conecta diretamente com o conceito de reserva de caixa e com o tema de fluxo de caixa como aliado em momentos de crise. Para aprofundar como empresas brasileiras atravessam crises econômicas preservando caixa e mantendo a operação, há um guia prático em como sua empresa pode atravessar épocas de crise.

Simulação de cenários não é adivinhação

Um ponto levantado por Gilles, fundador da Treasy e mediador do painel, foi relevante o suficiente para ficar registrado: muita gente confunde planejamento de cenários com tentativa de prever o futuro. São coisas diferentes.

Simular cenários é identificar as variáveis que impactam o negócio (preço da matéria-prima, volume de clientes ativos, taxa de câmbio) e calcular o que acontece com o resultado quando cada uma delas muda. A Treasy, empresa de software de planejamento orçamentário, admitiu ter caído no mesmo erro: tentou prever qual setor ia crescer e como se posicionar. O que funcionou foi acompanhar o que de fato estava acontecendo e ajustar os planos.

Para quem quer entender melhor essa diferença, o tema de análise de cenários orçamentários e de simulações de cenários aprofunda a distinção entre os dois conceitos.

O que as empresas estavam planejando para o segundo semestre

O bloco final do painel foi orientado para frente. Três temas apareceram com frequência:

Cultura de accountability. A crise acelerou o trabalho remoto, e o trabalho remoto exige que as pessoas prestem contas não porque o gestor cobra, mas porque entendem que é sua responsabilidade. Sem isso, a gestão a distância não funciona. O conceito foi destacado como uma mudança cultural necessária, não uma ferramenta de controle.

Reinvenção do modelo de negócio. A Costa Brava desenvolveu uma plataforma de eventos virtuais durante a crise e passou a realizar convenções de vendas para empresas com mais de mil participantes conectados. A Treasy iniciou o processo de franquear sua metodologia para consultores e profissionais de finanças. Em ambos os casos, o problema que resolvem é o mesmo, mas a solução passou por um canal diferente.

Automação de processos internos. Com mais tempo e menos volume operacional, várias empresas aproveitaram para automatizar tarefas manuais e eliminar desperdícios de hora humana em atividades que a tecnologia resolve. Esse tipo de melhoria de eficiência financeira costuma ficar para depois em momentos de crescimento.

Como usar esses dados e aprendizados no seu planejamento

Crises com impacto setorial diferenciado colocam uma pressão específica no planejamento orçamentário: as premissas que orientaram o orçamento do ano deixam de ser válidas da noite para o dia. O que os três empresários do painel demonstraram, cada um à sua forma, é que a velocidade de resposta depende de ter dados na mão antes da decisão.

Rubens viu os sinais no seu painel de dados de viagens antes de a crise chegar ao Brasil. Rodrigo atualizava a projeção de caixa diariamente. Eric abandonou projeções detalhadas que não podiam ser executadas e optou por uma postura de disponibilidade ativa para quem estava crescendo.

Esse é o ponto de convergência entre os três casos: quem tinha controle financeiro estruturado tomou decisões mais rápidas. Quem dependia de intuição ficou mais tempo reagindo.

Para empresas que querem estruturar esse processo, o ponto de partida é o planejamento financeiro empresarial e, mais especificamente, a capacidade de fazer revisões orçamentárias quando as premissas mudam.

O painel completo está no vídeo acima. Os dados da pesquisa, com análise por setor, porte e vertical, foram compartilhados durante a apresentação e permitem comparar o impacto por segmento.

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Perguntas frequentes

Quantas empresas participaram da pesquisa apresentada no painel?
751 respostas válidas foram computadas. A pesquisa excluiu respostas com qualquer campo em branco ou com a opção 'não sei responder', para evitar distorções na análise.
Qual foi o perfil dos respondentes da pesquisa?
Cerca de 40% eram sócios ou donos de empresa, 23% gerentes ou coordenadores. Somando diretores e presidentes, aproximadamente 75% dos respondentes tinham cargo de decisão direta. A maioria trabalhava nas áreas de administração, contabilidade, controladoria, financeiro e custos.
Quais setores foram mais impactados no faturamento?
O setor de turismo foi consistentemente o mais afetado nos três meses analisados. Serviços em geral tiveram menos empresas em crescimento do que comércio e indústria em abril. Telecomunicações foi um dos poucos setores com crescimento expressivo já a partir de maio.
Como a Costa Brava Viagens detectou a crise antes de ela chegar ao Brasil?
O diretor participava do board de uma aliança global de agências de viagens. Em meados de fevereiro, já observava queda nas viagens internacionais para a Ásia e recebia relatos de proibições de viagem impostas pelas sedes de multinacionais europeias e asiáticas para seus executivos. Esse sinal antecipado permitiu agir antes que o impacto chegasse ao Brasil.
Quais ações a Costa Brava tomou imediatamente ao perceber a crise?
Formou um comitê de crise com financeiro, RH e operações; fez corte de 20% do headcount com base em mapeamento de baixo desempenho; migrou toda a equipe para home office em dois dias; e renegociou contratos com fornecedores, reduzindo mais de 50% dos custos fixos em cerca de 20 dias.
Por que a Rota Exata não teve redução real de faturamento mesmo durante a pandemia?
Porque setores como logística, distribuição de alimentos e transportadoras aumentaram as frotas durante a crise, gerando novas contratações de rastreamento. Enquanto parte da base cancelava, outro grupo em crescimento mais do que compensou. O faturamento e os recebimentos se mantiveram sem redução líquida.
Qual foi o maior erro da Rota Exata durante a crise, segundo o próprio empresário?
Perder tempo tentando prever o futuro com projeções detalhadas de quais setores iriam crescer. Os planos foram corretos na análise, mas inaplicáveis na execução: os setores que cresceram estavam tão ocupados com o aumento de demanda que não tinham tempo para contratar novos serviços. A estratégia que funcionou foi manter disponibilidade ativa para quem procurava.
Como a Who Live Alimentação gerenciou a queda de 20% no faturamento?
A empresa fortaleceu o canal de comunicação com os clientes para ajuste de demanda em tempo real, usou suspensões de contrato e reduções de jornada para a equipe operacional, utilizou todos os mecanismos governamentais disponíveis (parcelamento de INSS, PIS, COFINS) e renegociou o aluguel com 40% de desconto por três meses em maio.
Como a Costa Brava usou crédito barato para proteger o caixa durante a crise?
Identificou uma linha de crédito subsidiada pelo BNDES com taxa efetiva de 0,4% ao mês, captou mais de 1 milhão de reais e aplicou em uma carteira de investimentos que rendia 3,5% ao mês. O resultado foi um colchão de caixa disponível se necessário, com custo próximo de zero e gerando retorno enquanto não era usado.
O que é 'pista de decolagem' no contexto de crise de caixa?
É o prazo que a empresa consegue sustentar as operações com o caixa disponível sem novo faturamento. Com quedas bruscas de receita como as da pandemia, essa pista encurtou para a maioria das empresas. Saber o tamanho dessa pista define a urgência das medidas de corte de custos e captação de crédito.
Qual a diferença entre simular cenários e tentar prever o futuro, segundo o painel?
Simular cenários é identificar as variáveis que impactam o negócio (preço de insumo, volume de clientes, câmbio) e calcular o que acontece com o resultado quando cada uma muda. Prever o futuro é tentar adivinhar qual dessas variáveis vai de fato se mover. O primeiro é gestão; o segundo é chute. A Treasy admitiu que, apesar de ser uma empresa de planejamento, também caiu no erro de tentar prever.
O que é accountability e por que foi mencionado como tema central para o segundo semestre de 2020?
Accountability é a cultura de prestação de contas por iniciativa própria, não por cobrança externa. Com o trabalho remoto acelerado pela pandemia, ficou evidente que modelos de gestão baseados em supervisão presencial não funcionam a distância. A mudança necessária é que cada pessoa preste contas porque entende ser sua responsabilidade, não porque o gestor está pedindo.
Como a Costa Brava reinventou parte do modelo de negócio durante a crise?
Desenvolveu uma plataforma de eventos virtuais e passou a realizar convenções de vendas corporativas com mais de mil participantes conectados simultaneamente, incluindo uma multinacional que os contratou para realizar a convenção de vendas da matriz nos Estados Unidos. O problema que resolviam (reunir pessoas para eventos) permaneceu o mesmo; a solução mudou.
As pequenas empresas sofreram mais do que as grandes durante a pandemia?
Os dados da pesquisa mostraram que micro e pequenas empresas foram as mais impactadas nos primeiros meses, mas também mostraram recuperação mais rápida. A hipótese levantada no painel é que empresas menores têm mais facilidade de manobra: menos burocracia, estrutura mais enxuta e capacidade maior de fazer mudanças rápidas na organização.
Como a Treasy mudou sua estratégia de negócio a partir das lições da crise?
Iniciou o processo de franqueamento da sua tecnologia e metodologia para consultores, profissionais de contabilidade e consultores de gestão. O raciocínio: o canal online chegava até certo ponto; uma rede de parceiros e franqueados conseguiria chegar onde o canal próprio não alcançava, distribuindo a mesma solução por um caminho diferente.
Em qual porte de empresa os dados da pesquisa foram mais expressivos?
Metade dos respondentes era de microempresas (faturamento igual ou inferior a R$ 3,6 milhões). Cerca de 25 a 26% eram empresas de pequeno e médio porte, que é o foco declarado do painel. Empresas de médio-grande e grande porte somaram 20% das respostas.
O home office foi bem recebido pelos funcionários durante a pandemia?
Os relatos do painel foram variados. Na Rota Exata, muitos funcionários que foram para home office pediram para voltar ao escritório por não terem estrutura adequada em casa e por sentirem falta do ambiente de trabalho e da interação presencial. Na Treasy, a transição foi tranquila por já ser uma empresa 100% online, mas surgiram problemas de ansiedade e estresse relacionados ao isolamento.

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