
Em abril de 2020, 28% das empresas de comércio relataram queda de mais de 50% no faturamento. No setor de viagens corporativas, uma empresa chegou a 95% de queda em um único mês. Esses não são cenários hipotéticos: são os números de uma pesquisa com 751 respondentes reais, apresentados ao vivo com três empresários que viveram cada um desses cortes na pele.
Este painel reúne dados quantitativos do segundo trimestre de 2020 com relatos detalhados de quem teve que tomar decisões em tempo real, sem manual de instrução e sem precedente recente. O que foi feito, o que teria sido feito diferente e o que essas empresas planejavam para o segundo semestre.
O que os números disseram sobre o Q2 de 2020
A pesquisa ouviu 751 profissionais com cargo de influência direta nos resultados das empresas: sócios, donos, diretores, gerentes e controladores. Dois terços das respostas vieram de cargos de decisão direta.
O foco foi deliberadamente estreito: impacto no faturamento e no quadro de funcionários. São as duas variáveis que qualquer empresa enfrenta, independentemente do setor ou porte.
Faturamento por setor (comparado a março de 2020):
- Em abril, cerca de 25% das empresas de comércio, indústria e serviços reduziram mais de 50% do faturamento.
- Em maio, a faixa de queda superior a 50% se manteve próxima, mas começaram a aparecer empresas com crescimento acima de 50%, especialmente em telecomunicações.
- Em junho, a tendência se repetiu: a fatia com queda severa permaneceu estável, mas o número de empresas em crescimento aumentou.
Quadro de funcionários:
- Entre 60% e 70% das empresas mantiveram o quadro inalterado nos três meses.
- As demissões que ocorreram foram concentradas em abril e maio. Em junho, esse movimento praticamente cessou.
- O setor mais impactado em ambas as análises foi o de turismo. O setor de hospitais e laboratórios foi o que mais se destacou no crescimento.
| Mês | Empresas com queda >50% | Empresas com crescimento >50% | Quadro inalterado |
|---|---|---|---|
| Abril/2020 | ~25% (comércio: 28%, indústria: 25%, serviços: 24%) | Muito tímido | 60–70% |
| Maio/2020 | ~20–22% | ~5% (começou a aparecer) | 60–70% |
| Junho/2020 | Similar a maio | Cresce (telecom e têxtil em destaque) | 60–70% (demissões cessaram) |
Três empresas, três realidades
Costa Brava Viagens: 95% de queda e a decisão de não esperar
Rubens, diretor-geral da Costa Brava, uma agência de viagens corporativas com 120 colaboradores pré-crise, foi o caso mais extremo do painel. A empresa atendia multinacionais e dependia de deslocamentos internacionais para faturar.
O sinal veio antes do impacto. Participando do board da aliança global de agências, Rubens observou em fevereiro de 2020 que executivos na Ásia e Europa já tinham proibição de viagens internacionais. Em meados de fevereiro, antes de o vírus chegar com força ao Brasil, ele começou a agir.
As decisões tomadas antes de março: - Formação de comitê de crise com financeiro, RH e operações. - Projeção do impacto no quadro necessário e corte de 20% dos colaboradores com baixo desempenho. - Migração para home office em dois dias (a empresa já operava com tecnologia mobile-first e espaço compartilhado). - Divisão dos principais fornecedores entre os sócios para renegociação direta, reduzindo mais de 50% dos custos fixos em 20 dias. - Negociação sindical antes da MP 936, com redução de 50% de jornada desde abril para todos os funcionários.
Março fechou com 50% de queda. Abril chegou a 95% de queda no volume de negócios. Julho ainda estava em 80% de queda. O setor de turismo corporativo, segundo Rubens, só voltaria com vacinação em massa.
Rota Exata: pessimismo excessivo que se provou errado
Eric, da Rota Exata (rastreamento veicular com cerca de mil clientes), teve uma trajetória diferente. A empresa fez projeções pessimistas de 30% de cancelamento da base, que caiu para 20%, depois para 10%. Nenhum desses cenários se confirmou.
O que aconteceu: a maioria dos cancelamentos não veio de insatisfação com o serviço, mas de pânico. Clientes pediam negociação, não cancelamento. E ao mesmo tempo em que parte da base reduzia a frota, empresas de logística, distribuidoras de alimentos e transportadoras (setores que atuavam durante a pandemia) aumentaram as frotas, gerando novas contratações.
Resultado: o faturamento e os recebimentos da Rota Exata não sofreram redução real ao longo do período. O único custo real foi o congelamento do plano de expansão e a demissão dos novos contratados para essa expansão que havia sido planejada.
Who Live Alimentação: queda de 20%, caixa projetado e refeições para o setor público
Rodrigo, diretor administrativo-financeiro da Who Live (serviço de refeições coletivas, 170 funcionários, 15 mil refeições por dia), enfrentou uma queda de 20% no faturamento na segunda quinzena de março. O impacto foi concentrado nos clientes corporativos que foram para home office.
As ações da empresa: - Comunicação diária com os clientes para ajuste de demanda em tempo real. - Suspensões de contrato e reduções de carga horária para o quadro operacional, mantendo a equipe administrativa e de coordenação. - Uso de todos os mecanismos governamentais disponíveis: suspensão de contratos, parcelamento de encargos (INSS, PIS, COFINS). - Renegociação de aluguel: primeira tentativa em abril resultou em recusa. Em maio, com mais informação e mais objetividade, conseguiu 40% de desconto por três meses. - Projeção de caixa até o final do ano com os parcelamentos programados.
Julho foi o mês mais forte do período, com o retorno gradual das empresas. A empresa não precisou recorrer a crédito externo.
O que cada um teria feito diferente
Esta foi a parte mais direta do painel. Três respostas distintas que revelam padrões comuns.
Rubens (Costa Brava): teria feito um corte de headcount ainda maior em março. Com a adesão à MP 936, a estabilidade de emprego ficou cara. A janela de decisão foi estreita. O que ele fez certo: agir antes que a crise chegasse ao Brasil, baseado em dados do board internacional.
Eric (Rota Exata): perdeu tempo tentando prever o futuro. Os planos detalhados de quais setores iriam aquecer foram corretos na análise, mas inaplicáveis na execução. As distribuidoras de alimentos estavam tão ocupadas com o aumento de demanda que não tinham tempo para "arrumar a casa". O que funcionou foi levantar a cabeça e dizer "estamos disponíveis para quem nos procura".
Rodrigo (Who Live): teria ido à negociação do aluguel com mais agressividade já em abril, antes de entender o tamanho da crise. A velocidade nas negociações de custo fixo faz diferença quando o caixa está sob pressão.
Caixa: a variável que separa quem aguenta de quem não aguenta
Um tema que emergiu organicamente no painel foi a gestão de caixa em crise. Rubens trouxe uma prática concreta: identificou uma linha de crédito subsidiada pelo BNDES com taxa efetiva de 0,4% ao mês, captou mais de 1 milhão de reais e aplicou em uma carteira de investimentos que rendia 3,5% ao mês. O resultado: um colchão de caixa com custo praticamente zero, disponível se necessário e gerando retorno enquanto não era usado.
A lógica descrita foi pragmática: "dinheiro você não pega quando você quer, você pega quando tem". Se a linha existe com custo baixo, a decisão correta é captá-la e aplicá-la, não esperar precisar e não encontrar.
A frase que resume essa visão: todos estavam na mesma tempestade, mas em barcos diferentes. Margem, caixa, estrutura de custos e perfil de cliente são variáveis que tornam cada situação diferente. Generalizações sobre o que "as empresas deveriam fazer" ignoram essa realidade.
Isso conecta diretamente com o conceito de reserva de caixa e com o tema de fluxo de caixa como aliado em momentos de crise. Para aprofundar como empresas brasileiras atravessam crises econômicas preservando caixa e mantendo a operação, há um guia prático em como sua empresa pode atravessar épocas de crise.
Simulação de cenários não é adivinhação
Um ponto levantado por Gilles, fundador da Treasy e mediador do painel, foi relevante o suficiente para ficar registrado: muita gente confunde planejamento de cenários com tentativa de prever o futuro. São coisas diferentes.
Simular cenários é identificar as variáveis que impactam o negócio (preço da matéria-prima, volume de clientes ativos, taxa de câmbio) e calcular o que acontece com o resultado quando cada uma delas muda. A Treasy, empresa de software de planejamento orçamentário, admitiu ter caído no mesmo erro: tentou prever qual setor ia crescer e como se posicionar. O que funcionou foi acompanhar o que de fato estava acontecendo e ajustar os planos.
Para quem quer entender melhor essa diferença, o tema de análise de cenários orçamentários e de simulações de cenários aprofunda a distinção entre os dois conceitos.
O que as empresas estavam planejando para o segundo semestre
O bloco final do painel foi orientado para frente. Três temas apareceram com frequência:
Cultura de accountability. A crise acelerou o trabalho remoto, e o trabalho remoto exige que as pessoas prestem contas não porque o gestor cobra, mas porque entendem que é sua responsabilidade. Sem isso, a gestão a distância não funciona. O conceito foi destacado como uma mudança cultural necessária, não uma ferramenta de controle.
Reinvenção do modelo de negócio. A Costa Brava desenvolveu uma plataforma de eventos virtuais durante a crise e passou a realizar convenções de vendas para empresas com mais de mil participantes conectados. A Treasy iniciou o processo de franquear sua metodologia para consultores e profissionais de finanças. Em ambos os casos, o problema que resolvem é o mesmo, mas a solução passou por um canal diferente.
Automação de processos internos. Com mais tempo e menos volume operacional, várias empresas aproveitaram para automatizar tarefas manuais e eliminar desperdícios de hora humana em atividades que a tecnologia resolve. Esse tipo de melhoria de eficiência financeira costuma ficar para depois em momentos de crescimento.
Como usar esses dados e aprendizados no seu planejamento
Crises com impacto setorial diferenciado colocam uma pressão específica no planejamento orçamentário: as premissas que orientaram o orçamento do ano deixam de ser válidas da noite para o dia. O que os três empresários do painel demonstraram, cada um à sua forma, é que a velocidade de resposta depende de ter dados na mão antes da decisão.
Rubens viu os sinais no seu painel de dados de viagens antes de a crise chegar ao Brasil. Rodrigo atualizava a projeção de caixa diariamente. Eric abandonou projeções detalhadas que não podiam ser executadas e optou por uma postura de disponibilidade ativa para quem estava crescendo.
Esse é o ponto de convergência entre os três casos: quem tinha controle financeiro estruturado tomou decisões mais rápidas. Quem dependia de intuição ficou mais tempo reagindo.
Para empresas que querem estruturar esse processo, o ponto de partida é o planejamento financeiro empresarial e, mais especificamente, a capacidade de fazer revisões orçamentárias quando as premissas mudam.
O painel completo está no vídeo acima. Os dados da pesquisa, com análise por setor, porte e vertical, foram compartilhados durante a apresentação e permitem comparar o impacto por segmento.
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