
Já em 2017, quando a Treasy lançou a primeira edição da Budget Trends, 37% das empresas brasileiras participantes não faziam nenhuma gestão orçamentária. Em 2025, esse número caiu para 19%. Progresso real, mas ainda 1 em cada 5 empresas operando sem bússola. É sobre esse retrato, e sobre o que está por trás dos números, que o episódio do Controllercast que você vê abaixo passa mais de uma hora discutindo com dois profissionais que conhecem o terreno de perto.
O convidado é Leandro Gomes, criador do método Controladoria Prática e referência na formação da nova geração de controllers. O ponto de partida é a quinta edição da Budget Trends, pesquisa anual da Treasy com mais de 200 respondentes de segmentos, portes e perfis variados. Assista ao episódio completo e, logo depois, confira a análise de cada ponto com os dados do estudo.
O que é a Budget Trends e por que ela importa
Antes de existir a Budget Trends, quem atuava em controladoria e planejamento financeiro tinha pouquíssimos benchmarks disponíveis. Profissionais de vendas, marketing e RH já contavam com pesquisas consolidadas. O time de finanças ficava para trás. Essa foi a motivação para criar a pesquisa em 2017: dar ao controller um espelho de como o mercado opera, com dados reais de práticas, ferramentas e gargalos.
A quinta edição trouxe mais de 200 respondentes e quase 30 páginas de material. O episódio do Controllercast destaca os pontos que mais chamaram atenção de Daniel (Treasy) e Leandro Gomes. Para quem quer entender o que faz uma área de planejamento e controladoria e como ela se posiciona no cenário atual, os dados da Budget Trends são uma régua valiosa.
Perfil dos profissionais: a nova geração chega (e traz mais mulheres)
O primeiro dado que chama atenção é a concentração de experiência: cerca de 60% dos respondentes têm mais de 41 anos. Não é surpresa. Quem cuida de finanças corporativas, planejamento e controladoria acumula responsabilidades que pedem bagagem. Gestores e acionistas tendem a depositar essa confiança em profissionais com mais rodagem.
O dado mais revelador, porém, está na faixa mais jovem. Mulheres já representam mais de 60% dos profissionais com menos de 25 anos na área. Isso indica que a próxima geração da controladoria tem uma participação feminina expressiva, e esse movimento começou a aparecer com força nas turmas de formação e nos canais digitais.
Leandro observa, a partir das suas mais de 1.500 alunas e alunos espalhados pelo Brasil, que o digital acelerou esse acesso. A linguagem direta, os modelos práticos e a possibilidade de aprender fora do horário de trabalho tornaram o caminho mais acessível para quem quer fazer uma transição de carreira do financeiro para a controladoria ou dar o próximo passo dentro da própria empresa.
Outro ponto levantado no episódio é a volatilidade geracional: há profissionais que ficam um ou dois anos em cada empresa e partem antes de criar um caso consistente. A controladoria pede conhecimento do modelo de negócio, e esse conhecimento leva tempo para se construir.
Maturidade orçamentária: evolução real, espaço ainda grande
A queda de 37% para 19% de empresas sem nenhuma gestão orçamentária ao longo de quase uma década é um indicador concreto de amadurecimento. Mas ainda são 19% operando sem previsibilidade, sem acompanhamento planejado versus realizado, sem bússola para o gestor.
O episódio traz uma metáfora que resume bem: o orçamento é a paz de espírito do dono. Quando ele existe, a decisão de alocar capital tem um referencial. Quando não existe, tudo vira achismo, e o achismo é caro. Para quem quer entender os benefícios concretos da gestão orçamentária e como convencer a diretoria a bancá-la, esse argumento vale muito.
Daniel reforça que o orçamento é uma ação que puxa outras ações: lançamentos corretos, relatórios gerenciais consistentes, acompanhamento mensal com disciplina. Quem começa a fazer o acompanhamento orçamentário planejado versus realizado percebe rapidamente que todo o processo financeiro ao redor precisa melhorar para sustentar essa prática.
Eficiência na elaboração: 52% levam mais de um mês
Esse dado provoca. Mais da metade das empresas participantes da Budget Trends 2025 leva mais de um mês apenas para elaborar o orçamento, sem contar ainda o acompanhamento mensal. Apenas 10% conseguem concluir o processo em até uma semana.
O que está por trás desse tempo? O episódio aponta três causas principais. A primeira é a qualidade dos dados: sem um histórico limpo e acessível, a elaboração vira garimpo. A segunda é a ausência de uma ferramenta dedicada, o que força o profissional a construir quase um sistema do zero em planilha. A terceira é a resistência interna: gestores que não entregam as informações no prazo porque a diretoria não bancou a cultura orçamentária de cima para baixo.
Leandro adiciona uma provocação: quem já faz orçamento há 3 ou 4 anos e ainda leva um mês provavelmente tem um problema de ferramenta, não de processo. Quem está no primeiro orçamento, o Excel resolve, desde que o escopo seja simples. Como fazer um orçamento empresarial com simplicidade no início é mais eficaz do que tentar chegar no nível de detalhe máximo logo de partida.
Cultura orçamentária: metade dos gestores ainda fica de fora
A Budget Trends 2025 mostra que 50% das empresas têm os gestores de departamento participando de todo o ciclo orçamentário. A outra metade se divide entre quem só acompanha o realizado (19%), quem acompanha e justifica desvios (18%) e quem não participa de nenhuma etapa (12%).
Para o episódio, esse é um dos dados mais importantes. Engajar os colaboradores no orçamento não é uma boa prática opcional: é o que separa um orçamento que vive em planilha de um orçamento que vive na decisão diária. O gestor que participou da elaboração se sente dono do número. O gestor que só recebe a cobrança no fim do mês trata o orçamento como burocracia.
O orçamento descentralizado exige mais esforço no início, mas cria uma cultura que se sustenta. E cultura, como Daniel e Leandro discutem no episódio, é quando o gestor já entra no sistema antes de fazer uma compra para ver se tem orçamento disponível, sem precisar que a controladoria vá até ele.
Um fator que acelera esse engajamento, segundo o episódio, é vincular o cumprimento das metas ao resultado financeiro do gestor, seja via remuneração variável por indicadores ou algum modelo de participação nos resultados. Sem esse elo, o orçamento fica no mundo das ideias.
Uso do orçamento na tomada de decisão: o dado que mais preocupa
Aqui está o dado que, na avaliação de Daniel, é o mais frustrante da Budget Trends 2025: 42% das empresas utilizam efetivamente os dados do orçamento para tomar decisões. Outros 45% usam apenas em alguns casos, em decisões maiores, e 12% não usam de forma alguma.
Isso significa que mais da metade das empresas investe tempo, energia e discussão para montar um orçamento e não o coloca como referência central na hora de decidir. O esforço aconteceu, o dado está lá, mas na hora H o gestor toma a decisão no feeling.
Leandro aponta dois caminhos para esse problema. O primeiro é estrutural: sem dados realizados disponíveis em tempo hábil, o controller não consegue comparar, não consegue apontar o desvio e a decisão fica sem suporte. O segundo é de posicionamento: a controladoria precisa aprender a apresentar o orçamento como ferramenta de decisão, não como relatório de prestação de contas. Isso passa por saber apresentar o planejamento orçamentário de forma que a diretoria enxergue o valor no dado, não apenas a planilha.
Inteligência artificial na controladoria: mais intenção do que uso
A Budget Trends 2025 incluiu pela primeira vez uma pergunta específica sobre inteligência artificial. O resultado: 59% das empresas ainda não utilizam, mas consideram implementar no futuro. Apenas 6% já utilizam em diversas etapas do processo.
O episódio trata o tema com equilíbrio. Leandro é entusiasta, mas faz um alerta importante: a inteligência artificial é um "estagiário de luxo" com capacidade cognitiva alta, porém que precisa ser supervisionado. Para finanças, onde um erro pode ter impacto grave e irreversível, delegar análises críticas sem validação é perigoso. A qualidade do input define a qualidade do output.
Daniel compara a inteligência artificial ao pacote Office: em algum momento vai ser pré-requisito de qualquer vaga, não diferencial. Quem está atuando em inteligência artificial aliada da gestão empresarial percebe que o ganho inicial vem da produtividade em tarefas repetitivas: integração de bases de dados, automação de conciliações, geração de procedimentos. O passo seguinte, análise diagnóstica e preditiva, exige que o profissional já domine o raciocínio antes de delegar à máquina.
O episódio cita ainda o e-mail do CEO da Shopify, que declarou que inteligência artificial seria critério tanto para promoções quanto para contratações. A mensagem para o profissional de finanças é clara: aprender a usar ferramentas de inteligência artificial não é mais opcional, mas nunca às custas de abandonar o domínio técnico que valida o que a ferramenta produz.
Como os profissionais de controladoria buscam conhecimento
Um dado que apareceu como destaque foi a mudança nas fontes de aprendizado. Em 2017, livros eram a principal referência dos profissionais. Em 2025, os treinamentos online aparecem em primeiro lugar, seguidos pelo YouTube e, em terceiro, ferramentas de inteligência artificial generativa.
Leandro faz um alerta que vale registrar: consumir conhecimento de forma rápida e fragmentada, sem construir uma base sólida, cria um profissional que não consegue validar o que a ferramenta produz. Para finanças, essa base é insubstituível. Entender as quatro metodologias de gestão orçamentária antes de usar uma ferramenta para automatizá-las é o que separa quem interpreta o resultado de quem só copia o output.
Os 6 maiores desafios da Controladoria em 2025
A pergunta sobre desafios foi respondida de forma múltipla. Os dados mapeados na Budget Trends 2025 apontam o seguinte panorama:
| Desafio mapeado na pesquisa | Percentual de citações |
|---|---|
| Dificuldade em prever e simular cenários | 50% |
| Uso excessivo de planilhas | 41% |
| Falta de recursos tecnológicos adequados | 39% |
| Falta de confiança nos dados históricos | 24% |
| Baixa participação dos gestores | 20% |
| Falta de apoio da diretoria | 14% |
Esses desafios se encadeiam. Sem dados históricos confiáveis, o controller não consegue construir premissas sólidas. Sem premissas sólidas, a análise de cenários orçamentários fica frágil. Com dados frágeis e ferramentas inadequadas, o profissional recorre à planilha em excesso. Com planilha em excesso, a agilidade cai e o gestor perde confiança no número. Sem confiança, a participação diminui e o apoio da diretoria enfraquece. É uma cadeia.
A saída, como discutida no episódio, começa pelo básico: garantir que os dados realizados cheguem no prazo e com qualidade. Quem resolve esse primeiro nível consegue avançar para o controle orçamentário com desvios claros, justificativas fundamentadas e acompanhamento que orienta decisão de verdade.
O papel do controller como influenciador interno
Um dos pontos mais práticos do episódio é o posicionamento do profissional de finanças dentro da empresa. Leandro argumenta que o controller precisa aprender a "vender": vender a importância dos processos para o gestor operacional, vender a necessidade do orçamento para o dono da empresa, vender a própria visibilidade do trabalho realizado.
Não basta ser bom. É preciso parecer bom, ser reconhecido, e para isso o profissional precisa simplificar a linguagem financeira para quem não tem formação técnica. Como demonstrar o retorno de investir em gestão orçamentária começa por mostrar, em linguagem acessível, o que o orçamento preveniu e o que ele ajudou a corrigir.
O episódio fecha com a metáfora do planejamento pessoal: o profissional de controladoria que não aplica o mesmo rigor de planejamento, gestão de riscos e acompanhamento na própria carreira perde o argumento mais forte que tem. Desenvolver um plano de carreira no financeiro usando as mesmas ferramentas que o profissional usa para orientar empresas é uma consistência que poucas pessoas praticam.
O que fazer com esses dados agora
A Budget Trends 2025 não é só um retrato. É um mapa de onde a maioria das empresas está e onde as melhores práticas já chegaram. Se você está na faixa dos 19% que ainda não faz gestão orçamentária, o primeiro passo não é uma ferramenta, é como fazer o planejamento orçamentário com o que você já tem. Se você já faz orçamento mas leva mais de um mês para elaborar, o problema provavelmente está na qualidade dos dados ou na ferramenta, e vale um diagnóstico honesto.
Se o orçamento não está sendo usado para tomar decisões, o trabalho está incompleto. Justificar desvios com FCA e transformar o acompanhamento em ferramenta de decisão é o que separa um orçamento de gaveta de um orçamento que orienta o ano.
Para acompanhar as próximas edições da Budget Trends e outros episódios do Controllercast com análises de quem opera a controladoria na prática, visite o canal da Treasy no YouTube. E quando quiser tirar o orçamento da planilha e colocá-lo para rodar com os dados reais do seu ERP, experimente o Treasy de graça e veja a diferença entre planejar e planejar com dado.
